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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Ostracismo para os vigaristas e carrocinha para os seus cães

Na antiga Grécia, quando se falava em ostracismo sabia-se que seriam afastados da vida política aqueles que ameaçavam a ordem democrática. Eles ficariam no exílio por um período de dez anos. Cabe lembrar que, na Atenas do líder Péricles, a democracia visava promover a participação de todos os cidadãos nos assuntos públicos e, por isso, a escolha dos representantes populares se dava através de uma espécie de sorteio. O princípio da igualdade norteava as relações de poder. Assim, tanto a isonomia (igualdade perante a lei), quanto a isagoria (direito à palavra), eram respeitados pelos habitantes das cidades-estado.

O conceito de democracia acabou sofrendo mutações com o passar do tempo. Hoje, qualquer um se acha no direito de falar em nome dos princípios democráticos. Isso vale, até mesmo, para defender a iniciativa privada e os interesses das multinacionais. Os empresários modernos, a exemplo do que fazia a aristocracia ateniense, condenam as ações oriundas da soberania popular, mas falam em nome dela quando os convém. Em seu tempo, Sócrates alertava que a aristocracia, na sua forma pura de governo, poderia dar lugar para uma forma pervertida, conhecida por oligarquia. Movimento responsável por beneficiar uma facção em detrimento do interesse da maioria. Para exemplificar, esse grupo pode ser composto por empresários da comunicação, os quais se opõem à iniciativas que buscam discutir a descentralização da mídia. Nos últimos meses, a aristocracia nacional, como já é de costume, colocou seus vira-latas para latir contra os movimentos sociais. Dessa vez, o alvo dos "cãomunicadores" foi a Conferência Nacional de Comunicação (Confecon).

Calma, a Confecom não é a carrocinha!

A Confecon assustou os aristocratas da mídia nacional, os quais, prontamente, colocaram seus cães de guarda para rosnar contra as mudanças propostas pelos midialivristas de todo o país. Os chamados "grandes meios de comunicação" fizeram pouco caso da "ecclesia" (assembléia geral) dos populares. Além disso, os empresários e os seus "melhores amigos" não quiseram participar das discussões pretendendo, com isso, boicotar a conferência. Os "cãomunicadores" sabem como ninguém preparar discursos eloqüentes e depois vendê-los ao público em nome de uma falsa defesa dos "interesses democráticos". Os artigos assinados pelos cães de guarda do poder econômico são patrocinados pelos "restos" deixados pelos grandes acionistas, mas, como bons cachorrinhos, os articulistas balançam o rabinho sempre que seus donos lhes dão um novo osso para roer.

Dessa vez, no entanto, o osso era um pouco mais duro, já que até o predidente Lula incentivou a organização e a realização da conferência. Um dos mais adestrados cãezinhos da mídia golpista, como sempre o faz, logo tratou de vociferar contra Franklin Martins, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (SECOM). Como se não bastasse, o rosnento tentou denegrir a imagem de todos que participaram da Conferência. Chamou a todos de "vigaristas", o que me fez lembrar de um personagem, o cachorrinho Muttley, que às vezes é confundido com o rabugento. Este articulista é bem conhecido, mas vamos chamá-lo de Muttley dos empresários da comunicação, estes sim, muito semelhantes ao dono do canino, o conhecido Dick Vigarista. A analogia representa bem a relação entre os empresários e os comunicadores da mídia gorda e sarnenta

Cão que se preza é bem adestrado!

Em sua coluna na revista que, ao contrário do que pressupõe o próprio nome, está cada vez mais cega de ódio das camadas sociais menos favorecidas, "Muttley" esbanja cinismo e hipocrisia. Um verdadeiro cãozinho da elite brasileira, rindo incontrolavelmente das trapalhadas cometidas por ele e seu comparsa. Late, mas não tem força para morder. Não tem argumentos e, por isso, sua agressão soa ridícula. No artigo do canino, aqueles que lutam para fazer valer um direito assegurado na Constituição Federal são criminalizados, já os que se insuflam para conservar as desigualdades são considerados grandes empreendedores.

O que assusta esse vira-lata da imprensa canina é, justamente, o debate sobre a democratização da comunicação, o qual, para seu desespero, não se dá pelo empenho do Governo Lula, mas pela luta dos movimentos sociais. Os militantes da contra-informação parecem, enfim, estar compreendendo que os avanços não virão pela via institucional e foram atrás da realização deste importante encontro.

Confecon quer que a população fiscalize a cachorrada!

Na conferência foi aprovada a criação do Conselho Nacional de Comunicação e, também, a divisão equitativa do espectro entre o sistema público e privado - 40% para cada um - sendo que ainda restam 20% para o estatal. Só a criação da TV Brasil, mesmo com suas limitações, já representa um primeiro passo na direção oposta a lógica dos canais comerciais. A qualidade técnica da emissora é discutível, mas o conteúdo, sobretudo as reportagens, concentram esforços numa programação mais lúcida e crítica do que a veicuada pelos canais tradicionais.

Uma TV melhor e mais democrática não é uma exigência, é um direito de todos os brasileiros. As concessões públicas, entregues nas mãos dos vigaristas de plantão, produzem mercadoria de segunda, que é importada dos EUA para ser recauchutada no Brasil. A falta de espaço para o contraditório e o monopólio da expressão, disfarçada de "liberdade", coloca o Brasil numa situação envergonhante. Um dos países onde a desigualdade social é crônica, mas as redes de TV nada falam sobre o assunto.

É o "reino" da democracia às avessas, onde os cães querem ser seus "amigos", tratam o receptor por você e dão boa noite antes de encerrar suas "apresentações adestradas". É costume desses tais "cãomunicadores", convidarem o telespectador a sonhar com um mundo melhor, cheio de riqueza e ostentação. Um mundo distante da realidade material da maior parte do povo brasileiro, mas que ocupa o espaço das pautas realmente importantes nos noticiários. Enquanto eles aprendem um novo "truque" para agradar seus donos, a maior parte da população fica às cegas sobre os processos democráticos que realmente interessam. Se implementadas, as proposições aprovadas na Confecom poderão, ao menos, "tosar" as ardilosas artimanhas desses infaustos caninos e atingir, quem sabe, seus comparsas vigaristas.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Prazer X Obrigação - uma leitura de Roberto Freire

Será que devemos considerar o prazer de viver uma utopia? Vivemos em uma sociedade autoritária e cada vez menos propícia para se fazer o que se quer e quando se tem vontade. No entanto, como não sentir tal prazer quando se ama? Como saber o que é o amor? Já que este é um sentimento que pode se manifestar de várias maneiras e, na maioria das vezes, costuma "dar as caras" justamente quando o objeto que despertou esse sentimento já se foi ou deixou de interagir com você da forma como fazia antes. Para tentar resolver um pouco estas questões vou trabalhar com algumas colocações do escritor anarquista, Roberto Freire. Segundo ele, "é o amor, não a vida, o contrário da morte".

Pois bem. Sento, penso e escrevo o que me vem à mente. O processo é realizado de forma desordenada. Afoito em dizer alguma coisa não escolho as palavras, digito com pressa, mas procuro usá-las cautelosamente. Às vezes minhas mãos suam, fico nervoso e parece-me que os dedos não conseguem acompanhar o ritmo das minhas idéias. Faço uma pausa. Recomeço. Desta vez tenho certeza de que o que acabo de escrever não era para ser redigido desta forma. Fico tenso. Não era bem isso - penso eu, para minha frustração. Logo me dou por vencido e a minha total falta de paciência acaba por deixar o texto como está. Na maioria das vezes não tenho saco nem mesmo para revisá-lo.

Nessa exposição que fiz da minha experiência de segundos atrás, ou seriam minutos, horas, dias... (vai depender de quando está sendo lido este texto), fica evidente que, no início, eu estava determinado a escrever algo concreto. Era um sentimento bom, tinha força, intensidade e eu sentia paixão em rabiscar qualquer coisa. Depois, ao final do mesmo parágrafo, parece que outro sentimento me invadiu: as cobranças estilísticas, a auto-crítica em excesso, tudo isso acabou por minar minha experiência. Ela era mesmo excitante, mas, de repente, o entusiasmo se perdeu.

Esse exemplo faz parte do conflito existencial que toma conta de todos, pois vivemos em uma sociedade onde reina a produtividade. Ambiente propício às patologias sociais e ao distanciamento das paixões. Assim, pode-se resumir este conflito no duelo: prazer x obrigação. No meu caso, a perda do "tesão" por escrever se deu por uma interrupção repentina. No momento em que eu estava atingindo o ápice criador. Aquele outro assunto, desgastante, e, insuportavelmente "mais importante" do que o ato de escrever por escrever, acabou tombando com a minha inspiração.

"Sem tesão não há solução"

Esses dias - por indicação de uma das minhas irmãs - comecei a leitura do livro: Sem tesão não há solução, que data de 1987. Em três noites li, questionei, concordei e discordei de partes do seu conteúdo. Para começar, acredito que não se pode esperar pouco dos pensadores anarquistas, ainda mais quando o assunto é paixão.

Quem, em sã consciência, vivendo abarrotado de trabalho, obrigações e encheções de saco das mais variadas espécies, conseguiria afirmar: "a vida não tem qualquer sentido", sem que isso fosse resultado de um pensamento suicida?

Roberto Freire é capaz disso. Criador da Somaterapia, ele se tornou referência na defesa dos ideais anarquistas e enfrentou, através da militância política, duas ditaduras: o Estado Novo (1937 - 1945) e a Ditadura Militar (1964 - 1985). Manteve-se fiel às suas convicções e elaborou diversas críticas contra todo tipo de autoritarismo, seja ele oriundo dos governos imperialistas ou da classe dirigente marxista-leninista.

"Não pedi e não escolhi de quem, por que, onde e quando nascer. Da mesma forma não posso decidir, como, onde, de que e por que morrer. Essas coisas me produzem a sensação de um imenso e fatal desamparo, uma insegurança existencial permanente". (Roberto Freire)

Segundo Freire, a sociedade em que vivemos, autoritária e desumana, nunca permitirá que o homem se realize por inteiro, deixando o amor fluir livremente. Fator, esse, capaz de levar as pessoas ao suicídio. Essa é uma forma de contestar a imposição do tempo e a gerência da morte. Segundo ele, "todos os suicidas buscam a morte contra a vontade, violentando-se dominados pelo desejo onipotente de dar sentido à vida e outro à morte, como se esta fosse um substituto para aquela e não apenas dois degraus da mesma escada em direção ao nada". Assim, outra questão emerge desta sentença: o que dá sentido as nossas vidas?

Para Freire, é simples: - basta haver tesão em tudo. Mas o tesão, ao qual faz referência, é aquele com "T" maiúsculo e não está ligado apenas ao sexo. Embora, de uma forma ou de outra, tudo pareça ter relação com o libido, até mesmo as relações de poder. Aliás, todos sabemos que é possível fazer sexo sem tesão e, analogamente, pode-se dizer que não há nada que se faça na vida com tesão que não produza o sentimento prazeroso de uma boa trepada. Na minha opinião, Freire acerta em cheio quando afirma:"as pessoas sérias e que vivem sob e no controle de valores absolutos, colocam o dever antes do prazer". O autor observa: "talvez o único prazer possível para eles seja a sensação aliviada e orgulhosa do dever cumprido a qualquer custo".

Concordo com Freire em muitos aspectos, principalmente no que diz respeito ao amor, o prazer, a responsabilidade e o compromisso. Esses assuntos, inclusive, poderiam ocupar uma centena de posts, mas quero me ater aqui a uma questão que acho fundamental: - a maneira grosseira como estamos tocando as nossas vidas na maior parte do tempo. Isso porque, ele mesmo, o "ininterrupto", responsável pela sucessão de dias, noites, horas, minutos, segundos e até milésimos de segundos, continua incoercível.

Ninguém pode parar o tempo. É inegável que aprender a viver leva tempo. Sentir prazer, por sua vez, é, também, uma questão de tempo. Bem como escrever, ler, refletir, agir, conhecer, amar, satisfazer-se... Por outro lado, o tempo de cada um é diferente e, talvez, nem sempre seja possível ter tempo de se pensar à respeito.

Se conseguirmos, pelo menos, um tempo para pensar, já será uma conquista. Na maioria das vezes costumamos reagir muito mais à impulsos do que, propriamente, questionarmos as nossas vontades. Para os seguidores da Somaterapia o impulso pela busca do conhecimento é mais importante do que a coisa conhecida. Então, sejamos menos impulsivos e mais interessados no que estamos fazendo, pois, assim, não perderemos o tesão e teremos mais tempo para viver. Ou melhor, como diria Freire, para amar.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Coragem

Quando outros forem os vivos, mortos renascerão.
E se muitos forem vistos, nós mesmos eles serão.
Quando as flores virarem espinhos, o corte não será em vão.
Entre medos e perigos, as dores o pior não são.

Entre a vida e o destino, um vasto campo se apresenta.
Entre o sano e o desatino, forte ele aparenta.
A menina e o menino, crescem sadios e sãos.
Entre rios e colinas, o sol não se põe em vão.

Na noite o escarninho: zombem do parlapatão.
A maturidade, esse mesmo menino, trocaria por um violão.
A música é momento sublime: é fé, é luz, é paixão.
Entre dores e desatinos: paz, alegria e canção.


*Homenagem aos que viveram na época da ditadura e enfrentaram todo tipo de tortura e perseguição pelo ideal de uma sociedade mais justa e fraterna.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A amizade é o melhor remédio

Quem nunca ouviu falar em Patch Adams? Em 2007, o programa Roda Viva, da TVE, entrevistou o médico norte-americano que ficou conhecido em todo o mundo através do filme: Patch Adams - o amor é contagioso.

Para Patch, o filme, produzido nos estúdios de Hollywood, ignora o fato de que sua luta é "pela medicina gratuita". Crítico impetuoso da indústria farmacêutica e da formação passada pelas escolas de medicina, ele deixa claro que o foco dos médicos deveria estar nos pacientes e não nas doenças.

Nesse primeiro vídeo é possível perceber o porquê de tantos eufemismos na produção cinematográfica dos EUA. A dica é para que seja dado um duplo clique na tela, o que irá redirecioná-lo para o YouTube. São 10 vídeos, mas a sequência é muito boa e vale a pena acompanhar. Como o próprio Patch diz: "na TV só tem lixo". Assim, quando aparece uma oportunidade como essa, não dá para deixar passar.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Seminário mantém viva discussão sobre a indústria cultural

No início deste mês estive em São Leopoldo, participando do 4° Seminário de Pesquisa Cepos. Este evento é promovido pelo Grupo de Pesquisa Comunicação, Economia Política e Sociedade (CEPOS), que está ligado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos. O convidado especial do encontro foi o professor José Marques de Melo, presidente de honra da Intercom e uma das maiores autoridades na área de pesquisa em comunicação do Brasil.

Na fala de Marques de Melo, destaque para o pensamento do sociólogo Armand Mattelard, com enfoque nos estudos da tecnologia, cultura de massa e indústria cultural. Entre as diversas dicas de leitura citadas por ele, uma, em especial, chama a atenção. O livro "Para ler Pato Donald", escrito na década de 1970, em parceria com Ariel Dorfman. Na época, o Chile enfrentava uma dura investida norte-americana para acabar com o governo socialista do então presidente Salvador Allende. Hoje, este país vive um novo processo eleitoral e, infelizmente, a direita parece, mais uma vez, próxima do poder. De um lado, Sebastián Piñera, empresário chileno e membro do partido Renovação Nacional. Do outro, Eduardo Frei, do Partido Democrata Cristão, apoiado pela atual presidente, Michele Bachelet. O comunista, Jorge Arrate, obteve apenas 6% dos votos e deve ficar ao lado de Frei no segundo turno das eleições, marcado para janeiro de 2010.

Examinar as construções simbólicas da Walt Disney, através dos quadrinhos, e a posterior ascensão destes desenhos ao circularem pelos cinemas do mundo todo, requer a leitura sobre as mudanças políticas e econômicas que ocorreram no século XXI. Hoje, Pato Donald e sua turma não tem mais a mesma influência que tinham naquela época, porém, outros são os heróis da juventude e, muitas outras, as estratégias de persuasão.

Para elucidar esta análise, gostaria de evocar uma situação que é recorrente para os autores do livro. Além de denunciarem o interesse econômico, que rege todo tipo de relação entre os personagens, a visão hollyudiana sobre os países da América Latina se revela singular. Passados mais de 30 anos da publicação do livro de Dorfman e Mattelard, todos sabem que o cenário político mudou e segue em constante tranformação. Porém, a atual situação econômica dos EUA está muito mais próxima da recessão de 1970 do que em outras épocas. A crise do petróleo que atingiu o país, em 1973, foi uma retaliação dos países árabes (pertencentes a Organização dos Países Exportadores de Petróleo - OPEP), aos norte-americanos, por apoiarem Israel na guerra Yom Kippur. A mudança no cenário político, não só da América do Sul como também do Oriente Médio, aponta para transformações significativas na estratégia de dominação dos EUA, que busca reafirmar seus valores maniqueístas. Mais do que nunca as antigas ferramentas de manipulação mostram que ainda podem ser úteis e, por isso, a reflexão sobre o tema é de extrema relevância histórica e social.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A chuva na cidade do charque

Numa cidade provinciana, como Pelotas, que em outras épocas foi considerada o berço da cultura européia no sul do Sul do país - com mais de dez periódicos locais circulando a pleno numa mesma década, para o deleite dos eruditos de plantão - hoje, ter apenas um jornal, o qual representa sabidamente os interesses da administração municipal, é, no mínimo, prejudicial para o entendimento dos fatos pelo conjunto da sociedade.

O que dizer de uma comunidade que, após recorrentes casos de enchente em sua região, reelege o governo de turno, o qual não fez nada para solucionar o problema durante o primeiro mandato? A Prefeitura sequer procurou saber da população pelotense onde gostariam que fossem aplicadas as verbas enviadas pelo Governo Federal para melhoria dos sistemas de cisterna e reparos dos danos da última cheia no município.

Não é de hoje que se ouve falar do aquecimento global e de uma série de mudanças climáticas. Mas isso não deve servir de justificativa para os problemas decorrentes do excesso ou da falta de chuva. A palavra-chave para resolver o impasse parece evidente: prevenção. Ao invés de se preocupar em asfaltar toda a cidade e deixá-la o mais próximo possível daquilo que as "nobres famílias" da antiga aristocracia riograndense acreditavam ser a "Atenas dos Pampas", o poder público deveria estar com os olhos voltados para as casas de bomba.

Urge reestruturar as antigas instalações para que, ao transcorrer outra "fatalidade", outro "episódio da natureza", não apareça no jornal do prefeito a velha justificativa: o meio-ambiente é o culpado. Aliás, muito fácil culpá-lo ou eximir-se de atribuições que cabem tão somente ao governo municipal. O difícil, ao que tudo indica, é trabalhar com a tal prevenção. É como a história da campanha pelo uso da camisinha apenas durante o carnaval, como se as pessoas não fizessem sexo sempre e o risco da contaminação por doenças sexualmente transmissíveis não fosse iminente. Deixar para pensar no assunto das enchentes quando outra catástrofe acontecer é mais do que irresponsabilidade, beira a má vontade política.

Hoje, quando o tempo começa a ficar feio na Princesa do Sul, o céu fecha e as primeiras gotas d'água começam a cair, todos se assustam, ou, pelo menos, deveriam. A cidade, que para alguns especialistas cresceu para o lado errado e tem uma rodoviária posicionada no pior local possível, não consegue mais mandar seus problemas estruturais para longe dos olhos dos herdeiros do charque. Afinal, o asfalto, colocado às pressas, está represando a água por todos os lados e já não se anda pelas vias centrais ou na zona nobre da cidade sem que, ao menos, se molhe os pés. Enquanto isso, haja justificativa furada e "fonte oficiosa" para dissimular sobre tamanha incompetência.

Foto retirada do blog: fatosimagens.blogspot.com

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A convergência que pode levar à democratização

Este ano está sendo muito importante para o avanço do debate sobre necessidade da democratização da comunicação no Brasil. Cidades de todo o país se organizaram para receber as etapas regionais e municipais da I Conferência Nacional de Comunicação, que será realizada nos dias 14, 15, 16 e 17 de dezembro em Brasília.

No final do mês de outubro, Pelotas sediou a Conferência Livre de Comunicação, uma fase preparatória para a etapa nacional. Em Porto Alegre, além da etapa regional, estão ocorrendo diversos encontros para discutir os processos midiáticos como um todo, visualizando a participação da sociedade como elemento fundamental para mudança do atual paradigma.

Recentemente a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) trouxe ao estado pesquisadores destacados na áreada cibercultura, por intermédio do X Seminário Internacional da Comunicação. Durante a atividade pôde se perceber que, as discussões sobre as novas tecnologias, vão ao encontro das necessidades públicas e apontam para a importância de se viabilizar o acesso a tais meios. Na manhã de ontem (11), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), recebeu os professores Bruno Lima Rocha (Unisinos) e Eduardo Vizer (Universidade de Buenos Aires) para debater os dispositivos legais que geram a formação do monopólio dos meios de comunicação e, assim, traçar um paralelo com a mudança do espectro de radiofreqüência na Argentina, onde foi aprovada a Lei dos Meios.

Uma série de outras experiências também tem contribuído, de forma permanente, para o aprofundamento teórico e prático do fazer comunicacional. O Grupo de Pesquisa Comunicação, Economia Política e Sociedade (CEPOS), da Unisinos, é um exemplo destas manifestações, já que, há seis anos, discute a democratização sob o viés da Economia Política e atua junto à comunidade local. Após realizar o curso “Mídia, Democracia e Políticas Públicas”, o grupo está organizando o 3° Seminário de Pesquisa CEPOS, que acontecerá no mês de dezembro. O evento é aberto ao público e irá apresentar os resultados das pesquisas dos trabalhos de alunos do Cepos. Para mais informações acesse o site: http://www.grupocepos.net/

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Um espaço para a reflexão

Seminário Internacional, realizado na PUC, foi um convite à novas abordagens sobre a mídia. Além da presença de Michel Maffesoli, destaque para a participação dos brasileiros: Muniz Sodré e André Lemos, cada um trazendo um novo olhar sobre a cultura e a tecnologia, relacionando, de maneira muito especial, o diálogo inerente às práticas coletivas e o imaginário social através da cibercultura.

Já no primeiro dia do X Seminário Internacional da Comunicação, o sociólogo francês, Michel Maffesoli definiu o pensamento como uma forma de tradução. Para ele, é através de exercícios críticos sobre o fazer comunicacional que se permite “passar de uma margem à outra”, ou ainda “colocar as particularidades dentro de um pluralismo coerente, buscando algo que é, ao mesmo tempo, geral e particular”. Maffesoli é professor da Sorbonne, em Paris, e Diretor do Centro de Estudos sobre o Atual e o Quotidiano (CEAQ), tem várias obras dedicadas ao estudo da pós-modernidade, dentre as quais se destacam temas relacionados à cultura, política e socialidade.

A mesa de abertura do seminário contou com a presença do também sociólogo e jornalista brasileiro, Muniz Sodré, ele esteve ao lado de Maffesoli para discutir a “Comunicação e o imaginário Social”. Sodré contextualizou a relação entre Brasil e França abordando aspectos do imaginário coletivo e das trocas simbólicas, as quais realizam, ainda hoje, um importante intercâmbio entre esses dois países. Passando às relações do cotidiano, destaque para a experiência apresentada pelo professor João Maia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). No segundo dia de palestras, ele procurou mostrar como as novas tecnologias podem servir de instrumentos para promover a produção local, fortalecendo a cultura das comunidades e propondo, através da web, uma resistência à cultura de massa. Em sua explanação, Maia, discorreu sobre a experiência da favela Mangueira – RJ.

No penúltimo dia, o professor da Universidade de Comunicação Federal da Bahia (UFBA), André Lemos, falou sobre a questão da mobilidade social dentro da perspectiva emergente de novas formas de comunicação. Sua intervenção contribuiu para a esclarecer que o espaço urbano está em constante movimento, amparado em novas mídias, e, isso, por si só, torna relevante o estudo da cibercultura, pois estaria repercutindo diretamente nas práticas sociais contemporâneas.

O evento foi realizado graças a uma parceria entre o Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da PUC e a Universidade René Descartes Paris. O seminário faz parte do Ano da França no Brasil, uma iniciativa dos governos desses países com o intuito de aprofundar as relações bilaterais não apenas no campo acadêmico mas também, no político, cultural e econômico.

*Na primeira foto, estão sentados da esquerda para direita: Patrick Tacussel Jacques Wainberg, Michel Maffesoli e Patrick Watier.

**Na segunda foto, estão sentados da esquerda para direita: Martine Xiberras, Andre Lemos , Eduardo Pellanda, Stéphane Hugon, Federico Casalegno, Jean-Martin Rabot

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O cativeiro do capital

No final do mês de outubro a Agência de Notícias Repórter Brasil, conhecida pela sua atuação em defesa dos Direitos Humanos, publicou mais uma reportagem denunciando a prática do trabalho escravo no país. Desta vez, foram libertados 17 trabalhadores na cidade de Vitória (ES). Eles dormiam num galpão sem direito a consumo de água potável e tampouco tinham acesso aos equipamentos necessários para a realização do trabalho manual. Além disso, a jornada era duríssima, cerca de 12 horas por dia, inclusive nos finais de semana. Os operários eram responsáveis pelas escavações das canaletas que alojam os cabos óticos da operadora de telefonia celular Claro e foram aliciados no estado do Rio de Janeiro.

Vale lembrar que a Claro faz parte de uma rede de companhias telefônicas controladas pelo empresário mexicano Carlos Slim. A América Móvil e Telefonica, é representada pela Claro no Brasil, sendo a maior operadora de celular da América Latina, com mais de 140 milhões de celulares funcionando sob sua transação comercial. Para se ter uma idéia, a fortuna adquirida por esse magnata das telecomunicações, já ultrapassa, até mesmo, a do co-fundador da Microsoft, Bill Gates.

As empresas multinacionais baseiam-se nos princípios do neoliberalismo para aumentar seus lucros e, assim, aprofundam as desigualdades sociais, levando um enorme contingente de trabalhadores ociosos ao desespero. Sem opções, eles aceitam qualquer possibilidade de emprego para tentar sobreviver. Quando a intervenção do governo no mercado de trabalho não é capaz de solucionar este problema, o capital estrangeiro, que beneficia apenas os empreendimentos internacionais, aprisiona os operários em situação de miséria por meio da labuta, os quais, por não terem alternativa, aceitam passivos aquilo que determinam seus capatazes.

Esse novo tipo de escravidão condiciona milhares de trabalhadores a transitarem entre o ócio e o suplício, já que não possuem as condições mínimas para exercerem uma atividade digna de garantir o seu sustento. Os donos do capital esbanjam fortunas, as quais ultrapassam os 30 bilhões de dólares, como no caso de Slim. Enquanto isso, a maioria dos trabalhadores que vivem em situações análogas à escravidão, se tiverem a sorte de receber, será algo entre R$ 3,00 a R$ 7,00 por metro escavado.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A noite que não acabou: leitura obrigatória

Nesta sexta-feira (30), teve início a Feira do Livro de Pelotas. Sempre marcada pela diversidade cultural e o bom gosto nas apresentações artísticas, este ano não deve ser diferente. Valorizar a cultura local é imprescindível, o que nem sempre ocorre em nossa cidade.

Infelizmente ainda reina, por aqui, uma mentalidade atrasada e provinciana, capaz de valorizar mais "os de fora" do que "os daqui". Pior ainda são aqueles que se dizem progressistas, mas, no fundo, têm o espírito tomado por esta prática preconceituosa e excludente. Deixando transparecê-la, mais cedo ou mais tarde, sobretudo quando sentem-se acuados pelo talento dos outros.

E, falando em produção local, acredito que um dos destaques da Feira do Livro deste ano seja o lançamento de "A noite que não acabou". Publicado pela Editora Mundial, a obra contém 300 páginas e conta a história do acidente ocorrido com a delegação do Grêmio Esportivo Brasil, no início deste ano. No acidente, morreram o preparador de goleiros Giovani Guimarães e os jogadores: Régis Gouveia e Cláudio Milar, este último o maior ídolo da história recente do clube.

Os autores da obra sempre acompanharam de perto a trajetória do Xavante. Nauro Júnior (fotógrafo do jornal Zero Hora) e Eduardo Cecconi (jornalista do ClicK-RBS) vêm esclarecendo para a imprensa, desde o início da apresentação da obra, que o objetivo não foi escrever uma história sensacionalista e sim, utilizar os recursos propostos pelo jornalismo literário para construir um livro-reportagem, documentando toda a caminhada do Xavante desde o dia 15 de janeiro até a queda para a segunda divisão do Campeonato Gaúcho. Tarefa nada fácil, uma vez que os autores tinham relações pessoais de amizade com as vítimas.

Confesso que ainda me causa muita tristeza lembrar o dia da tragédia. Para mim, que torço para o Brasil desde que me conheço por gente e tenho neste clube minha única paixão futebolística, tudo que o envolva acaba emocionando. Com certeza lerei o livro. Pode até não ser uma tarefa das mais fáceis, mas acredito que trata-se de um registro histórico do que ocorreu e serve não só para documentar esta etapa triste da vida do clube, como também para mostrar o quão frágeis nós somos e, portanto, a importância de se fazer o melhor enquanto estivermos por aqui.

O lançamento acontece neste sábado (31), às 18hs, na Praça Coronel Pedro Osório. Em Porto Alegre a obra será lançada na próxima quarta-feira, dia 4 de novembro, às 17h30min, na Praça da Alfândega.

Onde a flecha pode chegar?

Numa realidade social em que os "fenômenos" são criados com a mesma facilidade com que viram piadas, ter seus próprios ídolos, fora deste circuito, é um exercício de cidadania e independência.

Não acredito na real identificação dos torcedores que dizem ter uma relação de respeito pelo seu "ídolo", mas nunca estiveram perto dele. A proximidade se dá porque ele está na mídia, ou, porque deu para a torcida mais um título "fictício", já que os únicos a lucrarem com tais conquistas são dirigentes e patrocinadores. Também nunca vi torcedor com troféu de campeão mundial em casa e nem medalha no peito. No máximo um pôster ou uma camiseta, onde o cara que assinou o seu autógrafo, hoje, joga no time adversário, beija aquele distintivo e manda a torcida se f....

O interior resiste: uma paixão construída tijolo por tijolo

Mesmo com as relações sociais cada vez mais mercantilizadas, em qualquer área de atuação humana, acredito na importância de se valorizar os que têm uma energia inequívoca e resistem ao habitual. Fazem de chuteiras troféus e transformam gritos de guerra em oração. Acredito num tipo de força que só vem das massas. É um rojão que estoura, um batuque que incendeia, um grito em forma de coro para defender sua crença. Uma esperança renovada a cada momento, de conquistas quase impossíveis, assim como é a nossa própria batalha do dia-a-dia.

Um sentimento singular, que, aos domingos, encontra o coletivo e, mesmo quando todos se tornam cientes da discrepância financeira, da má distribuição de renda, que atinge até mesmo o futebol, não transforma-se em desânimo. Ao contrário, torna-se resistente. Faz dessa afronta financeira motivo para a criação de gritos de guerra. Motivo para defender a sua própria condição e mudar o seu destino. Para tornar-se vencedor e ser verdadeiramente campeão.

Acredito também na perseverança, no brio e na garra de toda gente humilde e batalhadora que desce a rua Princesa Isabel com o coração explodindo de alegria. Esse povo não está indo ver uma partida de futebol, se dirige à sua verdadeira casa. Um templo sagrado para os religiosos, um campo de batalha para os guerreiros, uma escola de vida para todos nós.

Nossa casa conhecemos muito bem. Não é tão grande como aquelas que mostram na TV, não é tão bonita e nem ostenta tantas "taças" como a maioria das mansões que sediam grandes eventos, mas, pelo menos, fomos nós mesmos que a construímos, tijolo por tijolo, degrau por degrau. Lá é possível se deparar com histórias impressionantes. Não só dos feitos de um time do interior e suas conquistas, mas de seus co-arquitetos, aqueles que construíram os cômodos de sua própria morada e, por isso, exigem respeito dos visitantes. É o Brasil de Pelotas, equipe que venceu a Seleção Uruguaia, campeã mundial na década de 1950; que chegou a terceira posição do Campeonato Nacional, em 1985 e que tem, em cada rosto desconhecido, rubro de emoção e negro de sua gente, uma história de vida surpreendente.

Na Baixada, no caldeirão, na nossa casa, já entramos em polvorosa, mas também ficamos em silêncio. Já brigamos por amor e sofremos pela perda. Já xingamos de raiva e calamos por respeito. Já nos sentimos envergonhados pelo vexame e orgulhosos pelo exemplo. Já mandamos alguém embora, mas choramos quando partiram. Já saímos irritados, prometemos nunca mais voltar, mas estamos sempre lá. Porque é naquele espaço que encontramos o nosso melhor.

Somos Xavantes, não temos nada para provar a ninguém e perpetuamos esse sentimento geração por geração. Não estamos buscando as "taças" do vizinho, nem nos preocupamos com os ornamentos que cada um utiliza para enfeitar a sua casa. Estamos ali porque a cada gol saímos vitoriosos e, a cada vitória, sabemos que atingimos o nosso objetivo. É na derrota que mostramos como somos grandes e na vitória que experimentamos onde podemos e, com certeza, iremos chegar. Mais uma vez juntos, tijolo por tijolo, degrau por degrau...

Depois que os negrinhos da estação entrarem e encherem o lugar de alegria, ninguém mais conseguirá tirá-los de lá!

Força Xavante!

"Para a vida inteira eu sou, sou rubro-negro, sou da Baixada eu sou Xavante eu sou"

sábado, 24 de outubro de 2009

Estante Virtual: há quatro anos democratizando a cultura

Recebi a informação de que a Estante Virtual, portal da internet que reúne milhares de sebos de todo o Brasil, acaba de completar quatro anos de existência. Uma grande iniciativa, devendo ser evidenciada por todos que reconhecem a leitura como instrumento de transformação social.

Teoria e prática lado a lado, para não incorrer no erro do pragmatismo exagerado ou da supervalorização de um conhecimento meramente especulativo. Prática sem teoria leva a falta de espaço para o contraditório e a reflexão: seja pela incompreensão do que está sendo feito, ou, pela insistência em seguir as poucas "cabeças pensantes". De outro modo, teoria sem prática, é como compor uma linda canção sem que jamais ela seja ouvida e toque o coração de alguém. Não seria arriscado dizer que teoria sem prática é fazer música com o instrumento dos outros. Só para não usar um exemplo mais malicioso, que também se encaixaria muito bem aqui...

Na edição de outubro da revista Caros Amigos, a professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Virgínia Fontes, fala com toda a autoridade de quem viveu a história e faz dela seu meio de sustento. Ela discorre sobre a importância de se remobilizar os movimentos sociais e sindicatos para promover o que chama de luta anticapitalista. Hoje, ela atua junto os movimentos populares, inclusive o MST, auxiliando na formação política dos trabalhadores rurais, mas, para chegar a esse nível de contribuição social, revela: "passei uns 10 anos afastada da militância e mais estudando. Sempre fui muito estudiosa, então fiz a faculdade de História, depois o mestrado em História na Universidade Federal Fluminense..."

A leitura é capaz disso. Ela transforma as pessoas, modifica suas perspectivas diante dos fatos, dá significado às bandeiras de luta e disponibiliza as ferramentas de atuação junto aos movimentos sociais. O livro é como uma metralhadora nas mãos de quem sabe utilizá-lo, atingindo as dúvidas e matando as curiosidades. No entanto, algumas editoras ainda não "compreenderam" o papel social do livro e continuam tabulando os preços de venda de acordo com a lógica de mercado. O abuso no valor de algumas obras mantém afastada a maior parte da população, criando os guetos culturais e formando-se os grupos pseudo-eruditas.

É aquela turma que não deixa de ler um livro do Paulo Coelho, mas, muitas vezes, despreza, ou até mesmo, desconhece, escritores como: Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e Lima Barreto (esse de vital importância para os jornalistas). Mas isso é só para citar os mais conhecidos. Figuras do calibre de Raduan Nassar, por exemplo, que na sua efêmera vida de escritor, tanto quanto pode, encheu de emoção aqueles que se debruçaram sobre seus livros, nem de perto são lembrados. Para desespero dos que prezam por uma boa leitura, ficam alienadas obras como: "Um copo de cólera" ou "Lavoura Arcaica".

E o que falar de Hemingway? Um dos primeiros autores que tive contato, sendo transportado à brilhante história do pescador que dá lição de vida, e do menino que lhe tem como exemplo. Numa sociedade em que os jovens, cada vez mais, desprezam a experiência e os velhos vivem pelos cantos, excluídos e rejeitados, é um bom exercício de reflexão ler "O Velho e o mar".

Quero parar de citar autores mas não consigo. Não posso deixar de fazer referência a Gabriel Garcia Marques e José Saramago, dois gênios da literatura contemporânea, de elevada crítica social e responsáveis por diálogos interpessoais belíssimos. Não será exagero, portanto, dizer que, uma estante capaz de disponibilizar mais de 20 mil livros, entre novos e usados, se constituí, hoje, num arsenal poderoso para educar a sociedade e promover uma atuação política consciente.

E por meio de qual tecnologia esse recurso está disponível? Com certeza essa revolução na distribuição de obras literárias só poderia ser promovida pela web. A rede mundial de computadores já está causando tanta dor de cabeça nas elites que o senador tucano, Eduardo Azeredo, chegou a propor uma lei para barrar as possibilidades de interação via internet, como a troca de arquivos através de download. (Veja mais sobre o assunto clicando aqui)

Quem disse que brasileiro não lê?

Como revela a reportagem “A máquina de vender Livros" , de Fábio Bueno Netto, para o Le Monde Diplomatique Brasil (dezembro de 2008), o brasileiro, não só, "lê, como, gosta de ler, sabe escolher e é muito exigente". A afirmação está baseada em canais de distribuição de obras literárias, com vários títulos de baixo custo e que estão dispostos nos metrôs do Rio de Janeiro e São Paulo, para chamar a atenção do leitor. A máquina de vender livros (figura ao lado), funciona como aquelas de vender refrigerante, é só escolher o título, apertar o botão, pegar seu exemplar e pronto! Claro depois é necessário ler, mas isso, como dá para perceber, não é o "real" problema.

É por essas, e por outras, que novas iniciativas, como a Estante Virtual e a Máquina de Vender Livros, merecem destaque e respeito. Afinal, a leitura, ao contrário do que é concebido desde a mais tenra infância, não pode tornar-se algo chato, enfadonho e de caráter meramente decorativo. Ela é, ao contrário, um alimento; a fonte de inspiração, o ápice de toda atividade reflexiva, a qual se pretende crítica e revolucionária. Ler é reler e compreender. É transpor dogmas ou ceticismos, transcendendo o senso comum. Estar diante de um livro, seja ele qual for, é o mesmo que encontrar-se na frente de uma porta com a mão na maçaneta. Abri-la, é uma escolha sua, mas ao entrar dificilmente terá volta, aquela descoberta é sua para sempre e jamais sairá da sua mente.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Mídia, Democracia e Políticas Públicas

O Grupo de Pesquisa Comunicação, Economia Política e Sociedade (CEPOS), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), estará promovendo de 19 à 23 de outubro o curso: “Mídia, Democracia e Políticas Públicas”.

Atuando a mais de seis anos na área da comunicação, com foco na Economia Política, o CEPOS desenvolve pesquisas que englobam as práticas sociais, os processos de digitalização e a mídia audiovisual com o foco na democratização da comunicação. Por meio de abordagens críticas, avalizadas em um referencial teórico de peso, o grupo, coordenado pelo Prof. Dr. Valério Cruz Brittos, publica suas reflexões semanalmente no Observatório da Digitalização Democracia e Diversidade, colaborando também com a revista do Instituto Humanitas Unisinos (IHU).

Além disso, contribui com publicações no Observatório da Imprensa e recentemente lançou o livro “Digitalização e práticas sociais: modulações e alternativas do audiovisual”, publicado pela editora Unisinos. A publicação traz um apanhado dos trabalhos que foram apresentados no último Seminário de Pesquisa CEPOS, em dezembro de 2008.

Socializando e dividindo saberes com a comunidade acadêmica e o público em geral, cresce a expectativa de evidenciar o papel fundamental da comunicação como uma ciência em constante movimento e que deve ser tratada como tal para, através da atividade teórica, interferir na sociedade como um exercício de cidadania.

As atividades do curso: "Mídia, Democracia e Políticas Públicas" serão realizadas sempre às 19hs, na sede do CPERS – Sindicato, Avenida Alberto Bins, 480, no centro de Porto Alegre. Mais informações no site: www.grupocepos.net, ou pelo telefone: 51 3591-1100. Para visualizar a programação clique na imagem.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Para ouvir com o coração...

A música Of A Broken Heart, da banda norte-americana Zwan, é uma daquelas que o cara tem que sentar para ouvir com calma e, mesmo assim, quando chega no final, parece que não deveria ter acabado. Dá vontade de seguir escutando um pouco mais...

Torna-se praticamente uma obrigação apertar novamente o play e prestar atenção nas outras possibilidades de dialogar com aquela sonoridade marcante das bandas lideradas por Corgan. Destaque também para a baixista, Paz Lenchantin, que dá um toque especial a esta composição melancólica fazendo com que o violino, literalmente, chore de emoção. Ou será que ele estaria apenas se lamentando?

O Zwan teve uma vida curta. O vocalista da banda, Billy Corgan, conhecido por sua trajetória à frente do Smashing Pumpkins, encerrou os trabalhos da banda em 2004, quando retornou aos Pumpkins lançando o álbum Zeitgeist, no ano de 2006.

A letra da música é bem interessante. Por mais que não esteja perfeita a tradução, vale a pena viajar nesta bela poesia do rock alternativo:

"Se for pra morrer uma vez nesta vida que seja pelo menos tentando dar uma dentro e ser o melhor./ Mesmo com esse sentimento que escondo pelo mundo afora e que nos mantém vivos, quero que você suba comigo./ Pelo menos até que eu morra com um coração partido./ O coração de uma criança, que agora está nas suas mãos e que, por isso, espera um sorriso seu, já que não fica comovido com a sua solidão./ Já faz um tempo que você perdoou as suas próprias mudanças, por isso, vamos contar nossos passos lado a lado./ Se for pra morrer uma vez nesta vida, pelo menos teremos tentado juntos.../"

sábado, 10 de outubro de 2009

Enem, o Nove e a mídia que não "cansa"

Está em pauta, mais uma vez, a discussão sobre o novo modelo de vestibular no Brasil; processo que se mostra cada vez mais falho, independente do tipo de avaliação que seja feita. Só a intenção de selecionar os "mais aptos", tanto no modelo anterior quanto nessa nova forma de escolha, cria a idéia de que os melhores sairão vitoriosos, restando aos reprovados a alcunha de "derrotados". Eles ainda terão que aguentar aqueles incentivos mórbidos dos vencedores de plantão: "tente outra vez que você chega lá". "Se esforce para atingir este grande objetivo, você será recompensado". Argh, que nojo!

Na selva capitalista, os "bixos" são os heróis; os veteranos, nomenclatura que lembra os velhos combatentes de guerra, são os responsáveis por ensinar o caminho a ser trilhado durante o curso de "suas vidas" e, os que não se enquadram nesse modelo nada didático de aprendizado, devem fazê-lo imediatamente, sob a pena de jamais entrarem no mercado de trabalho.

Recentemente a mídia voltou a discutir o modelo de ingresso nas universidades com a intenção de "denunciar" a urgência de uma reforma no sistema educacional. Mais do que isso, fez um alarde sobre o que chama de "crise do Enem", o qual, ao ter suas provas furtadas, provocou o maior rebuliço nas universidades brasileiras e, em epecial, no Ministério da Educação. Para comprovar sua tese de que está na "classe média" a esperança para o futuro do país, não foram poupados esforços para achar novamente os heróis e os vilões desse processo e, assim, denunciar as falhas do sistema que ela própria ajudou a legitimar.

Manipulação e poder

Exemplo claro de manipulação midiática, o jornal O Globo fez o Exílio sentir-se na obrigação de levantar alguns pontos que estão sendo escamoteados dos dois lados do debate. Sim, sempre tem dois lados, tanto o da organização golpista quanto o daqueles que defendem até o fim qualquer política que venha do governo federal. Na verdade não são apenas dois lados, é interpretação que não acaba mais. Por isso, indico logo de saída a leitura do artigo de Argemiro Ferreira, O jornal e o novíssimo movimento estudantil, que pode ser encontrado, na íntegra, no site do Observatório da Imprensa e a matéria do jornal O Globo, intitulada: Nove, grupo que se organizou após a crise do Enem critica UNE e Ubes.

Segundo Ferreira, a diferença de tratamento que o jornal O Globo dá para os jovens da elite, filhos das famílias abastadas da aristocracia nacional e os alunos da região nordeste do país, que além de precisarem combater os estereótipos criados e perpetuados pelas organizações Globo, em suas novelas e minisséries televisivas, tem a necessidade de provarem constantemente serem iguais, ou, até mesmo, superiores aos estudantes das escolas privadas, é um ponto chave para desvendar o enigma. Mistério esse, que condena o próprio presidente da República a um papel de mocinho ou bandido, já que carrega um Silva em seu sobrenome, além, é claro, de ser o maior responsável pelas políticas adotadas na área da educação Brasil afora. Podemos tomar de exemplo o ProUni, o qual, particularmente, acredito ser importante para amenizar o problema ao acesso de estudantes carentes às universidades, mas está longe de, por si só, solucionar todos os desafios da educação no Brasil.

Já as organizações Globo, ao exaltarem o que chamam de Nove - Nova Organização Voluntária Estudantil, reforçam sua contraposição à UNE e à Ubes, entidades historicamente combativas, atuantes na organização do Movimento Estudantil brasileiro, mas, que, agora, são vistas como instituições servis, incapazes de fazer os questionamentos necessários ao Governo Lula, pela proximidade ideológica que possuem com ele. É importante mencionar, (e aqui está a minha maior motivação para escrever sobre o assunto) que estas organizações, tão marcantes na trajetória de luta dos movimento sociais, as quais denunciaram e resistiram à ditadura militar, tendo inclusive sua sede queimada pelos golpistas de 1964, hoje, encontram-se em um processo de discussão interna e de urgência na renovação de seus quadros.

Esse fato, no entanto, não legitima de forma alguma os tais "novos movimentos estudantis" patrocinados pelas corporações midiáticas. A esperança fica por conta de que uma entidade da expressão da UNE possa seguir na vanguarda da luta política em defesa do direito dos estudantes, somando-se, também, na peleja das demandas sociais de outros movimentos, não correndo o risco de contribuir para a fragmentação social. Cabe à UNE e à Ubes travar um diálogo com os estudantes brasileiros afim de que estes se coloquem frontalmente contra esse processo de despolitização da juventude. Uma promoção das megacorporações nacionais, as mesmas que, em outros tempos, tentaram lançar o movimento "Cansei", lembram? De tão fraco e mal intencionado o golpe já nasceu morto, mas encontrou igualmente, nas famílias da classe média, a base necessária para a manutenção do status quo e das reivindicações da elite "patriótica e brasileira". É ruim heim!!!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Os desafios do Jornalismo Literário

Na década de 1960, estudiosos da mídia passaram a questionar as amarras narrativas expressas por meio do lead (técnica de construção da notícia, importada dos Estados Unidos, cuja proposta de criação do texto está baseada em responder, logo no primeiro parágrafo, as questões: quem? faz o quê? quando? onde? como? e por quê?). De lá para cá pouca coisa mudou, pois, ainda hoje, o jornalismo literário segue sendo a exceção na maioria das redações brasileiras, embora seja evidenciado como modelo a ser seguido pelos profissionais da área.

O novo jornalismo propõe a inversão da lógica utilizada pela pirâmide invertida (metáfora que remete a prioridade dos aspectos a serem evidenciados na matéria, os quais, sob esta perspectiva, devem seguir uma ordem decrescente), incentivando a espontaneidade na criação dos textos, sem a necessidade do uso das regras expressas nos manuais de redação. Segundo o jornalista e professor da UCPel, Manoel Jesus, "esta forma de produção, mecanizada, está ultrapassada". Ele explica que, “hoje, já se fala em aberturas de matérias, as quais podem ‘dar sabor’ ao texto”.

De acordo com Jesus, a dificuldade dos jornais diários em inserir novos formatos em suas rotinas de trabalho se dá, sobretudo, “pela incapacidade em se implementar um processo de aprendizado de maior fôlego e, concomitantemente, cumprir os prazos estabelecidos para o fechamento dos periódicos". Sendo assim, percebe-se que não basta apenas aplicar recursos literários ao jornalismo, é preciso respeitar o tempo de construção das histórias e, acima de tudo, as particularidades de cada autor ao contá-las ao público leitor.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Sobre déspotas, democratas e a mídia

A mídia não cansa de criar "heróis" e condenar "tiranos", mesmo que não haja tais personagens ou que eles estejam em posições opostas aquelas denunciadas a priori. Às vezes a distorção dos fatos é tão grande que nas rodas de conversa, pelas ruas, encontramos pessoas, de todas as idades e das mais variadas classes sociais, concordando umas com as outras sobre alguma opinião que ouviram na TV, ou leram naquela revista que tem na sua prática cotidiana o antônimo do que pressupõe seu nome. Na “Veja”, ao invés de compreender determinado fato, o leitor acaba sendo induzido a fazer parte de um ritual maniqueísta que cria factóides e distorce a realidade para atender os interesses políticos e comerciais da Editora Abril.

Quando, em pleno século XXI, um presidente latino-americano, eleito pelo voto popular, é deposto de seu cargo e os meios de comunicação chamam isso de “crise política”, ou, em alguns casos, admitem ser um golpe, mas afirmam se tratar de uma defesa do que regulamenta a Constituição do país, é necessário fazer uma reflexão antes de sair reproduzindo qualquer coisa por aí.

Após depor o presidente Manoel Zelaya, com a justificativa de que, ao propor um terceiro mandato ele estaria atentando contra a democracia, o golpista, Roberto Micheletti, fechou os canais de televisão e as emissoras de rádio que se opunham a sua prática despótica.

Além disso, Micheletti, chamado de "presidente interino" pela mídia traiçoeira, embora esteja mais para ditador interino, regozija-se de estar restringindo a liberdade de expressão em Honduras para defender o que está na Constituição. A maioria dos hondurenhos quer um terceiro mandato do presidente Manuel Zelaya, mas as forças conservadoras conspiram contra a democracia e, por incrível que pareça, dizem agir em nome dela.

Como se isso não bastasse, a opinião pública mundial é obrigada a reconhecer que ao lado da União Européia destaca-se o presidente norte-americano, Barack Obama, como símbolo de defesa da democracia no país caribenho. Obama condena o golpe militar em Honduras, mas nada fala sobre as três bases militares que os Estados Unidos mantém na Colômbia, sob o pretexto de combater o narcotráfico.

Assim como Hugo Chaves sofreu, e ainda sofre, diversas retaliações e perseguições políticas mesmo sendo submetido a uma série de referendos, após garantir a eleição ilimitada, agora é a vez de Zelaya fazer parte do rol de presidentes latino-americanos que estão enfrentando uma "crise política".

Numa rápida análise, digna das matérias mais utilizadas na mídia nacional, cabem aqui, duas questões: o que têm em comum Venezuela e Honduras? Não por acaso, são dois grandes produtores de petróleo. Seria isso, aliado a descoberta do pré-sal no Brasil, um indicativo de alguma ação militar em terras da América do Sul? Só o desfecho dos fatos irá responder a essa pergunta, no entanto o presidente Lula já tomou sua posição, manteve-se ao lado de Zelaya, condenando as forças golpistas, o que é um ótimo indicativo.

Com quantos mandatos se faz uma democracia?

Essas discussões sobre ter um, dois, três, quatro, ... vinte mandatos, ou permitir apenas uma reeleição, não atingem a discussão mais de fundo. Se trocar de presidente a cada dois, quatro ou oito anos, desse ao país um caráter mais democrático, não apenas no plano das idéias, mas também na prática, seria dever de cada cidadão defender tal situação, mas mudar de governo por mudar ou “porque já teve tempo suficiente e não fez”, etc.. é jogar no lixo da história o passado de espólio sobre as riquezas naturais dos povos da América Latina, que não pode ser reconstituído em tão pouco tempo.

É justamente a soberania popular e os direitos civis que estão em jogo. Havendo a aprovação de um projeto político capaz de se opor minimamente a esta pseudo-democracia - democracia-liberal - já será um avanço para diminuir a situação de miséria e desigualdade social profunda que os países latino-americanos estão submetidos desde a época das primeiras expedições européias em nossos solos.

Com o tempo a democracia ianque assumiu a colônia escrava e se revelou um verdadeiro câncer social. Os países menos desenvolvidos inspiram-se, através dos meios de comunicação, numa forma equivocada de enxergar o mundo e simplificam esta disputa entre o bem e o mal, o avanço e o retrocesso...

Especialistas de plantão

Quando Hugo Chaves fala da ofensiva norte-americana na América Latina, os "especialistas de bunda quadrada", dizem que são retóricas vazias. Esses caras estão sentados na suas poltronas confortáveis e falam através da televisão para milhares de pessoas.

São especialistas que "nádega", ou melhor, nada teriam a perder se levantassem um pouco a bunda da cadeira e saíssem dos estúdios para olhar a realidade do povo brasileiro e latino-americano pela lente mais precisa de todas, a visão humana, capaz de enxergar a realidade sem meias verdades.

Graças às políticas defendidas pelos próceres da democracia representativa e comunicacional a população tem sido constantemente dizimada pela miséria sem que isso, se quer, vire notícia; um sintoma da manipulação midiática, capaz de transformar golpista em "presidente interino" e golpe militar em "governo de fato".

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Com a palavra o poeta...

O poeta português Fernando Pessoa dizia sentir o dever pessoal de promover o alargamento da consciência humana.

Em sua obra, nos convida a refletir sobre o idealismo e propõe a utilização de métodos simples para encontrarmos as respostas aos nossos problemas pessoais.

Fica aqui, dois fragmentos de sua vasta obra literária, cujos sentidos se sobrepõem a qualquer outra postagem que me tenha passado pela cabeça no dia de hoje. Pretendo chamar a atenção para a importância do que suas palavras revelam.

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos".

Sossega, coração! Não desesperes!

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa, 2-8-1933.

domingo, 20 de setembro de 2009

Um réquiem ao tradicionalismo neste 20 de setembro

Quando, em 1835, estancieiros e charqueadores gaúchos se colocaram contra o Império, não estavam tomados por sentimentos de resistência, afirmação ou patriotismo. O que estava em jogo eram, exclusivamente, os interesses políticos e econômicos.

Sendo assim, não foi a totalidade da população do Rio Grande do Sul que se levantou contra o Império. Na verdade, a maior parte dos gaúchos o apoiava. Com isso, os representantes da oligarquia riograndense, se viram obrigados a construir um movimento contra a taxação da terra e do charque; estavam imbuídos de interesses pessoais e preocupados com a sua própria condição financeira.

Esta data, comemorada pela população, ano após ano, com bastante entusiasmo, não passa de uma reverência ao que foi escrito pelos assessores dos Chefes Militares. Baseados no legado deixado pela Revolução Francesa, os escribas da época, pintaram um quadro de revolução patriótica, no entanto, a história revela que foi apenas um levante patrocinado, em sua maioria, pelos proprietários de terra. Um movimento que nada tinha a ver com ideais revolucionários quando saía do papel e chocava-se com o contexto histórico.

Aliado a isso, preocupa, ainda hoje, os incentivos dados pelo governo para promover desfiles, festas e rodeios. Isso mostra que não existe o mesmo interesse em investir na educação, por exemplo. Priorizar o aprendizado, é dar conhecimento ao sujeito sobre a sua história e deixar que ele julgue os fatos por si mesmo. A população fica refém de um tradicionalismo maniqueísta, que busca na distorção histórica dos fatos, a afirmação de seu movimento.

Revolução de quem?

Esse tradicionalismo, travestido de civismo, é um produto da sociedade em que vivemos. A espetacularização dos fatos, a construção dos mitos e os próprios esteriótipos e preconceitos impregnados na sociedade contempôranea, têm suas raízes fincadas nesse modo de enxergar o que é "ser" gaúcho.

Mais uma vez foram os negros que sangraram. Para se ter uma ideia, os farrapos, não só mantiveram a escravidão, como também entregaram para o Império os negros que haviam sobrevivido a chacina de Porongos.

Ao fechar o acordo final e aceitar a anistia oferecida pelo Barão de Caxias, os negros, que ainda restavam no exército farroupilha, foram levados para trabalhar nas galés do Rio de Janeiro como escravos.

Com a palavra o Historiador

Segundo o historiador da Universidade de Passo Fundo, Tau Golin, "a formação da memória é altamente manipulada". Ele conta que essa exaltação toda, alimenta um sentimento de arrogância e antibrasileiro, ou seja, não contribui, em nada, na compreensão da grandeza histórica do Rio Grande do Sul. É uma percepção que transforma o estado num mito de uma república de estancieiros e senhores de escravos.

Para Golin,"o que vemos hoje é um estado mobilizado pelas forças da Indústria Cultural e pelos aparelhos ideológicos do governo, com o intuito de cultuar na avenida e, por toda a mídia, senhores de escravos e caudilhos, como heróis".

O historiador coloca a situação da seguinte forma: "o modelo está pronto, basta querer parecer do sul e vestir a fantasia. Como isso não tem materialidade, nem ambiência social, envereda-se, para a teatralidade". A verdadeira identidade regional está alicerçada na diversidade cultural presente em todas as regiões, não só, no Rio Grande do Sul, mas também, Brasil afora.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Zé do Né

É verdade que existem os azarados, os de má sorte, aqueles que desmentem ditados como: “um raio não cai duas vezes no mesmo lugar” ou “nada como um dia após o outro...”

O cara comprova que o raio, não só, cai mais de umas mil vezes no mesmo lugar, como machuca, e muito. E se dói, imagina como vai ser um dia após o outro...

O camarada só se quebra. Parece que está eternamente preso a uma pegadinha do destino e tem alguém, ou, “alguéns” dando risada da sua cara. Pois bem, nada se compara a triste sina de um grande amigo meu, o langoroso Zé do Né.

Nunca tinha visto tanto infortúnio reunido em uma só pessoa. O pior de tudo é que o rapaz sempre foi exemplo de aplicação e responsabilidade. Quando questionado sobre diversão, dizia:

- Acho importante a gente se distrair, aproveitar a vida, mas antes...
A partir daí vinha uma série de explicações para mostrar que, em primeiro lugar, estavam sempre os afazeres profissionais, acadêmicos ou domésticos.

Aos poucos Zé do Né foi percebendo que não teria muito futuro assim. Tudo em sua volta era um fardo. A cada dia sentia sua cabeça pesando mais de uma tonelada. O resultado disso tudo é que, na maioria das vezes, ou melhor, sempre, Zé do Né se dava mal.

Não podia ser diferente. Zé queria tudo tão perfeito, tão pontual e tão correto. Não tinha como atender nem as suas próprias expectativas, o que dirá as dos outros. O mais engraçado é que as pessoas que o cercavam nem se preocupavam tanto assim com ele. Aliás, o Zé se preocupava com os outros, pelos outros e para os outros. Estranho “né”? Vou tentar explicar...

Zé do Né tinha emprego, era casado e estudava. Todo dia ele ficava inquieto, na ânsia de corresponder às mais diversas expectativas. Mal sabia que a principal expectativa a ser atendida era a cobrança excessiva sobre si mesmo. Ele sempre ouvia:

-Zé, já está tudo certo para fecharmos aquele negócio no prazo estabelecido?
-Zezinho, meu bem, desce o lixo, paga as contas... não esquece, viu? Te amo.
-Devia ter estudado mais rapaz. Sua nota deixou a desejar.

Eram tantas cobranças. Zé do Né ficava atordoado na hora de responder aos questionamentos. Logo demonstrava claramente a sua insegurança. Não conseguia dizer nada sem questionar o interlocutor com um duvidoso “né”, ao final de cada afirmação.

-Sim chefe, está tudo organizado e estamos dentro do prazo. "Né”?,
-Tá certo. Sou eu que faço tudo nessa casa mesmo. "Né”?
-Pois é, “né”? O senhor tem razão professor. Não estudei tanto quanto poderia ter estudado. Posso render muito mais, “né”?

Pobre Zé do Né, mal sabia ele que a vida, ah... a vida..., não está nem aí se o Zé fechou aquele negócio no trabalho, se desceu o lixo, lavou a louça ou se estudou para prova.

O que ela quer mesmo é fazer o Zé perceber que não importa o quanto se preocupe, ou tente fazer as coisas o mais perfeito possível, nunca estará um passo a frente. Nem poderá prevê-la.

É nessas horas que Zé do Né costuma se dar por vencido. Ele não consegue perceber que o melhor da vida é justamente não ter certeza de nada e ser pego de surpresa a cada novo instante. É viver cada dia ao seu dia.

Enquanto isso, segue a expectativa de que, o Zé, aprenda a conviver com a dúvida. Esta sim, componente essencial para ser feliz. Né?

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Está ao alcance das nossas mãos

Já faz algum tempo que tirei essa foto. Como todas as coisas surpreendentes da vida, a capturei totalmente por acaso. Isso para não dizer que foi realmente de forma acidental. De uns tantos cliques que dei, apenas um saiu revelando alguma coisa.

Caminhando pela praça Coronel Pedro Osório, em Pelotas, com uma máquina que me havia sido emprestada, em punho, tinha como único objetivo sair clicando o que viesse pela frente. Era uma simples distração.

Quando visualizei as imagens capturadas pela lente da câmera percebi que, em uma delas, havia encontrado um sentimento esquecido em toda parte. É a tal da solidariedade.

Por algum tempo fiquei me perguntando o real significado desta foto. Será que precisa ter um significado? Será apenas um? Na verdade, para mim, o acaso não é totalmente desprovido de intenção.

Não que eu quisesse tirar a foto tal e qual ela aí está exposta, mas acredito na capacidade de, inconscientemente, interagirmos com as nossas emoções e, de alguma forma, colocarmos isso para fora sem que, nem mesmo nós, possamos saber o porquê. Até que alguma coisa nos remete a esse fato.

Heróis de infância - Parte 2

(Continuação...) Sentado à mesa sentia-me um ser de outro mundo. A cada brinquedo que surgia, em meio aos dedos afoitos de meus colegas, percebia que meu lugar não era ali.

Ainda mais quando surgiam os tais “Comandos em Ação”. Empunhados, um a um, pelos meus companheiros de mesa. Era sempre a mesma rotina ao final das aulas. Os bonecos simbolizavam os “heróis” do nosso mundo. Trajados com uniformes militares ou com roupas especiais, estavam prontos para a guerra. Mas eu não.

Traziam o escudo dos EUA no peito e uma águia tatuada no braço. Podiam tudo aqueles brinquedos aos meus olhos de criança. O portador de tais bonecos era como um “Deus”, alguém superior, que podia manipulá-los, fazê-los ganhar vida. Para isso, só precisaria comprá-los. O que não era tão simples assim para algumas crianças...

Eu estudava em escola particular, mas com muito esforço por parte dos meus pais. Éramos três lá em casa, o que deixava o orçamento ainda mais pesado. Nossos pais tentavam nos convencer de que, o fato de estarmos recebendo aquela educação, segundo eles, de “melhor qualidade”, já seria motivo de orgulho e sinal de um futuro promissor. Eu era muito jovem e não fazia o menor juízo sobre essas coisas.

Um dia, contudo, recebi uma lição de verdade naquela escola. A rotina, como descrevi, era sempre a mesma. Final de aula, todos pegando seus brinquedos para começar mais um ritual de comparações e concorrências do qual eu não participava, ou, pelo menos, não até certo dia.

No final de semana, meio sem querer, não é que eu havia achado na rua o tal do boneco? Isso mesmo. Era um “Comando em Ação”. De inicio achei apenas uma perna, andei mais alguns passos e lá estava o resto do corpo.

Lembro-me como se fosse ontem, meu pai colando a perna do meu mais novo “herói”. Ele estava sujo, pois o encontrei na areia da praia. As cores do uniforme de soldado estavam desbotadas e, ao contrário daqueles que eu costumava ver na escola, não tinha nada de especial.

Bem, mesmo assim resolvi levá-lo para aula no dia seguinte. Era o que eu tinha de melhor. Aliás, era o único que eu tinha. Antes de retirá-lo da mochila hesitei, mas logo aquele momento de dúvida deu espaço a uma excitação sobre o novo.

A possibilidade de, enfim, ser incluído no grupo sentado comigo à mesa era mais forte do que o medo. Arrisquei. Quando puxei o “Comando em Ação” da mochila meus colegas nem deram atenção. Como já estava acostumado, também resolvi ignorá-los.


De repente, alguém exclamou:

- Olhem. O boneco dele é de verdade!
-Ele deve ter vindo de uma guerra - disse o outro.
-Sim! Está como um verdadeiro soldado: sujo e com a perna quebrada - completou um terceiro.

Todos largaram seus brinquedos, mais bonitos e novos do que o meu, para conhecer o que eles identificavam como um "Comando em Ação de verdade". Aquele boneco salvou o meu dia.

Ele conseguiu ser um verdadeiro herói naquele momento - era tudo que eu podia compreender. O problema é ter de arranjar um igual todos os dias. Para minha tristeza a novidade acabou tão logo tocou a sirene da escola.

Essa é a lógica da sociedade de consumo. Não poupa nem mesmo as crianças. Se apresenta desde a mais tenra infância. A lição que se pode tirar de acontecimentos como esse é individual, mas o resultado será sempre coletivo.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O texto: expressão da realidade?

Desde Aristóteles, quando se inferiu à literatura um caráter mimético, a arte de escrever já ocupava um lugar de destaque nas rodas de conversação da antiga Grécia. Esse ofício, ainda repercute, com maior ou menor intensidade, na sociedade contemporânea. Depende do grau de interesse de cada um.

Com o passar do tempo, surgiram estudos de importantes pensadores na área da literatura. É o caso do britânico Terry Eagleton, crítico literário marxista, que definiu a Teoria Literária como uma forma teórica de investigação. Ele procurou trabalhar com o conceito de literatura, partindo do tipo de relação que ela estabelece com a sociedade.

A palavra “novel” (de novo ou inexperiente) foi usada nos séc. XVI e XVII tanto para definir os acontecimentos reais, quanto os fictícios. Os romances e as notícias não eram claramente factuais, a distinção que é feita hoje não se aplicava na época. Dessa discussão, surgiu a ideia de que a literatura, talvez não seja definida pelo seu caráter ficcional ou imaginativo e sim, por aplicar uma linguagem particular.

E por que não observar o jornalismo por esse mesmo ângulo? Quanto existe de ficção nas notícias selecionadas todos os dias por algum chefe de redação e editadas dezenas de vezes antes de chegarem ao público leitor?

Não se pode afirmar que a notícia é o retrato fiel do fato noticiado, ela pode, no máximo, revelar uma ideia geral sobre algo que já aconteceu. Isso, por si só, já nos leva a estabelecer essa relação entre a criação da obra literária e do texto jornalístico, levando em conta todas as variáveis que envolvem a construção textual em ambos os casos.

Tanto no texto jornalístico, quanto no literário, a experiência sobre o assunto, o contexto, os preconceitos do redator/escritor, as imposições da empresa para qual trabalha, a formação de esteriótipos e a mistificação de que ele (redador/escritor) é um ser capaz de levar a verdade, o novo e o inusitado ao restante da população, influem na maneira com a qual será escrita e recebida aquela versão da realidade.

Essa comparação entre o resultado final do que é considerado obra literária ou jornalística, remete a discussões antigas sobre a capacidade do texto, seja ele qual for, absorver as angústias da sociedade e promover a cidadania, levando a todos um retrato, que, se não pode ser exato, pelo menos seja produzido dentro do espectro onde se dá o fato ou se cria a realidade.

O que pretendo questionar com tudo isso é o caráter de verossimilhança que a notícia, enquanto obra literária, adquiriu na sociedade contemporânea. Na maioria das vezes, não há o espaço para a dúvida e o questionamento. Fator esse, que, na minha opinião, é extremamente lesivo à sociedade.

A insistência de muitos veículos de comunicação em afastar a subjetividade das matérias jornalísticas, aliada a falta de sustentação histórica dos fatos, induz o leitor ao erro. Sendo este fantasiado, diariamente, de verdade absoluta e aquele, de intérprete da realidade.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Um diálogo

Essa deu no blog do jornalista e escritor Georges Bourdoukan, ele flagrou dois burros conversando...

Dois burros conversavam quando um perguntou ao outro:
- Imagina você que quando um humano quer ofender a outro humano o acusa de burro. Por que será?
- Não tenho a mínima idéia.
- Quando será que isso começou?
- E quem sabe?
- Realmente é estranho isso...Humano chamar o outro de burro como ofensa.
- Talvez porque chamá-lo de humano fosse ofensa maior.
- Você acha?
- Claro! Você já viu algum burro explorar outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro oprimindo outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro abandonar a cria?
- Não.
- Você já viu algum burro sem teto?
- Não.
- Você já viu algum burro sem terra?
- Não.
- Você já viu algum burro torturando outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro declarando guerra a outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro invadindo o país de outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro matando ou morrendo em nome de Deus?
- Não.
- Então, qual ofensa é maior, chamar de burro ou de humano?

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