
Quando, em pleno século XXI, um presidente latino-americano, eleito pelo voto popular, é deposto de seu cargo e os meios de comunicação chamam isso de “crise política”, ou, em alguns casos, admitem ser um golpe, mas afirmam se tratar de uma defesa do que regulamenta a Constituição do país, é necessário fazer uma reflexão antes de sair reproduzindo qualquer coisa por aí.
Após depor o presidente Manoel Zelaya, com a justificativa de que, ao propor um terceiro mandato ele estaria atentando contra a democracia, o golpista, Roberto Micheletti, fechou os canais de televisão e as emissoras de rádio que se opunham a sua prática despótica.
Além disso, Micheletti, chamado de "presidente interino" pela mídia traiçoeira, embora esteja mais para ditador interino, regozija-se de estar restringindo a liberdade de expressão em Honduras para defender o que está na Constituição. A maioria dos hondurenhos quer um terceiro mandato do presidente Manuel Zelaya, mas as forças conservadoras conspiram contra a democracia e, por incrível que pareça, dizem agir em nome dela.

Como se isso não bastasse, a opinião pública mundial é obrigada a reconhecer que ao lado da União Européia destaca-se o presidente norte-americano, Barack Obama, como símbolo de defesa da democracia no país caribenho. Obama condena o golpe militar em Honduras, mas nada fala sobre as três bases militares que os Estados Unidos mantém na Colômbia, sob o pretexto de combater o narcotráfico.
Assim como Hugo Chaves sofreu, e ainda sofre, diversas retaliações e perseguições políticas mesmo sendo submetido a uma série de referendos, após garantir a eleição ilimitada, agora é a vez de Zelaya fazer parte do rol de presidentes latino-americanos que estão enfrentando uma "crise política".
Numa rápida análise, digna das matérias mais utilizadas na mídia nacional, cabem aqui, duas questões: o que têm em comum Venezuela e Honduras? Não por acaso, são dois grandes produtores de petróleo. Seria isso, aliado a descoberta do pré-sal no Brasil, um indicativo de alguma ação militar em terras da América do Sul? Só o desfecho dos fatos irá responder a essa pergunta, no entanto o presidente Lula já tomou sua posição, manteve-se ao lado de Zelaya, condenando as forças golpistas, o que é um ótimo indicativo.
Com quantos mandatos se faz uma democracia?
Essas discussões sobre ter um, dois, três, quatro, ... vinte mandatos, ou permitir apenas uma reeleição, não atingem a discussão mais de fundo. Se trocar de presidente a cada dois, quatro ou oito anos, desse ao país um caráter mais democrático, não apenas no plano das idéias, mas também na prática, seria dever de cada cidadão defender tal situação, mas mudar de governo por mudar ou “porque já teve tempo suficiente e não fez”, etc.. é jogar no lixo da história o passado de espólio sobre as riquezas naturais dos povos da América Latina, que não pode ser reconstituído em tão pouco tempo.
É justamente a soberania popular e os direitos civis que estão em jogo. Havendo a aprovação de um projeto político capaz de se opor minimamente a esta pseudo-democracia - democracia-liberal - já será um avanço para diminuir a situação de miséria e desigualdade social profunda que os países latino-americanos estão submetidos desde a época das primeiras expedições européias em nossos solos.

Especialistas de plantão
Quando Hugo Chaves fala da ofensiva norte-americana na América Latina, os "especialistas de bunda quadrada", dizem que são retóricas vazias. Esses caras estão sentados na suas poltronas confortáveis e falam através da televisão para milhares de pessoas.
São especialistas que "nádega", ou melhor, nada teriam a perder se levantassem um pouco a bunda da cadeira e saíssem dos estúdios para olhar a realidade do povo brasileiro e latino-americano pela lente mais precisa de todas, a visão humana, capaz de enxergar a realidade sem meias verdades.
Graças às políticas defendidas pelos próceres da democracia representativa e comunicacional a população tem sido constantemente dizimada pela miséria sem que isso, se quer, vire notícia; um sintoma da manipulação midiática, capaz de transformar golpista em "presidente interino" e golpe militar em "governo de fato".