
Há mais de 90 dias chove continuamente no estado. As autoridades procuram fazer a sua parte. Semana passada o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma Medida Provisória destinando recursos na ordem de R$ 1,6 bilhão. O Tesouro Nacional fez um aporte de R$ 370 milhões ao governo catarinense, por meio de títulos, e a sociedade civil também está empenhada em ajudar as vítimas de todas as formas que julga possível.
A mídia e a enchente
Os meios de comunicação brasileiros estão se especializando no que o jornalista José Arbex Jr costuma chamar de showrnalismo. Lamentavelmente não se contentam em fazer apenas a cobertura dos fatos. Por certo campanhas de solidariedade e ajuda às vítimas não caracteriza, em si, um apelo ao sentimentalismo, mas o problema aparece quando, ansiosos em conquistar pontos no ibope, entra em cena o "vale tudo" pela audiência. Não é raro, principalmente em programas de TV, a exploração do sofrimento das pessoas e o oportunismo de algumas emissoras, diga-se de passagem, em especial da Rede Record, aproveitando-se da situação na tentativa de ligar a sua imagem à uma ação socialmente responsável.
"Além das doações, que estão sendo recebidas por meio de uma conta do Instituto Ressoar (Bradesco), a Record irá destinar a maior parte de seu faturamento de dezembro e 15% dos salários de seus executivos para a causa", revelou o vice-presidente comercial da emissora, Walter Zagari, ao site propmark (Propaganda & Marketing).
É importante que as empresas de comunicação brasileiras, donas de receitas milionárias, estejam engajadas em práticas como essa. É de igual relevância o envolvimento em campanhas de marketing com intuito de colaborar, de alguma forma, com os problemas sociais do povo brasileiro, mas a questão é: - o que os meios de comunicação querem de retorno da sociedade? Obter o reconhecimento de uma imagem empresarial competitiva e socialmente responsável?
É preciso questionar os interesses que levam uma emissora de abrangência nacional a formatar reportagens onde os diretores da empresa são os protagonistas da matéria e repórteres entrevistam seus superiores. Comovidos eles circulam em meio ao palco da tragédia. Famílias perderam tudo, pessoas humildes mostram as conseqüências do desastre. As lentes das câmeras encontram as lágrimas das pessoas e, lá estão eles, todos reunidos, vítimas e seus "heróis midiáticos". Ninguém é contra que se ajude as vítimas da enchente, muito pelo contrário, mas isso não dá o direito de se explorar o sofrimento das pessoas para transformar tragédias pessoais em picos de audiência.