
Existem diversas formas de dominação humana. Algumas mais sutis, outras nem tanto. O fato é que, uma linguagem escravizada, é traduzida em preceitos absurdos, onde classes inteiras são dominadas e julgadas inferiores pelos lingüistas de plantão.
Há uma infinidade de preconceitos lingüísticos. Eles estão impregnados no falar ou no escrever de cada brasileiro. O princípio da dominação está em não permitir a expressão popular. Inculcar, desde pequeno, em todas as crianças, como devem falar. Precisam seguir o exemplo dos mais velhos, dos letrados ou daqueles que aparecem na televisão.
A explicação para isso é histórica. Língua tem a ver com relação de poder. Exemplos clássicos, citados no livro Linguagem Escravizada, de Mário Maestri e Florence Carboni, destacam a importância da reflexão sobre esse tema. A palavra "moleque," que no português passou a ter sentido de "menino levado, travesso, menino de rua", é de origem quibunda e surgiu em Angola, onde a maioria étnica é negra e o signifcado é, tão somente, menino.
Há outros exemplos, como a palavra "maloca", aldeia da tribo tupi-guarani, que, hoje em dia, é entendida como o local onde residem as populações pobres. A palavra "china", de origem nativa, remete, erroneamente, a figura da mulher prostituída. Expressão que é muito empregada no Sul do país, com a intenção de denegrir a imagem de uma mulher.
Essa dominação lingüística e esse preconceito enraizado e cruel, reforçado pelas classes que estão no poder, colaboram para a reafirmação de esteriótipos. No espaço de dominação cultural, política e econômica, o uso da língua deixa de ser público e assume contornos de opressão social.
O tal "padrão culto" está a serviço de alguém. Isso é fato. Meios de comunicação, escolas, famílias, todas essas instituições aceitam o padrão dominante. Esquecem a origem das palavras, as variações lingüísticas e, principalmente, a diversidade cultural dos povos latino-americanos.
Somos todos escravos. Trabalhadores, estudantes, negros, brancos, mestiços, pobres e, até mesmo, ricos. Libertar-se das imposições culturais não resume-se a travar disputas em âmbito econômico, pois, na esfera da vida privada, constantemente é reproduzido o ódio de classe e o preconceito lingüístico. Superar esta etapa de dominação, expressa pelo modo de se comunicar, implica em reconhecer quando deixamos de falar por meio de nossas próprias construções mentais e, nessa direção, assumimos a postura de reprodutores da linguagem dominante.
"A sufocação dos timbres, das vozes e das línguas dos oprimidos é a condição essencial para a manutenção da hegemonia dos opressores" (Citação de Mário Maestri em Linguagem escravizada).