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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A liberdade do capital e a escravidão simbólica

Entre o final de semana passado e o início desta semana passou a circular na internet um vídeo divulgando a criação da "nova abertura" da série Os Simpsons, de autoria do grafiteiro Banksy. Na última segunda-feira, 11 de outubro, a emissora pública do Estado britânico, British Broadcasting Corporation (BBC), publicou uma matéria falando sobre o assunto e salientou: "a ideia teria sido inspirada em supostas notícias de que os produtores da série terceirizariam a maior parte do trabalho para uma empresa na Coreia do Sul".

Embora o caso seja revoltante, a julgar apenas por essas informações, tal situação não deixa de ser apenas curiosa, pois, não espanta muito o fato da FOX, emissora de televisão norte-americana ligada à News Corporation, de Rupert Murdoch, estar explorando mão de obra barata para vender suas produções midiáticas e fortalecer um dos maiores conglomerados de mídia da Europa. Talvez só obrigando-me a fazer referência a outro célebre ditador midiático, dono do Mediaset, o qual também atua nesse continente, o magnata e neo-fascista italiano, Silvio Berlusconi.


Vídeo de Banksy com a "nova abertura" de
Os Simpsons

A série estadunidense, Os Simpsons, foi criada pelo cartunista Matt Groening e desenvolvida especialmente para a FOX, tendo como principal intúito satirizar o american way of life e entreter um público abrangente, já que recebe dublagens para o espanhol e português e circula, através dos seviços de TV por assinatura, para os mais variados lugares do globo terrestre. A crítica dos Simpsons à classe média norte-americana é válida, mas, ainda mais importante, é questionar como são elaboradas e executadas estas produções hollywoodianas e quais os intresses econômicos e políticos que estão por trás dos bens simbólicos oriundos da indústria cultural.

A forma como Murdoch e Berlusconi conseguem coagir qualquer suspiro de orientação regulatória em seus países é um alerta para a importância de se pensar em modelos de regulação pública, os quais, necessariamente, não podem estar vinculados ao controle excessivo do Estado, mas devem ser suficientemente capazes de interferir na livre atuação desses agentes, evitando que ocorram os mais absurdos e incontestáveis abusos de poder por meio do uso dos media.

Murdoch e Berlusconi

Um fato que ilustra bem essa preocupação é a ingerência que Murdoch estabeleceu ao longo dos anos, na Inglaterra, sobre os partidos conservador e trabalhista. Sabendo da força e da influência do jornal The Sun, nenhum grupo partidário ousou medir forças com o todo poderoso proprietário desta publicação. Foi, inclusive, nesta mesma direção, que o Governo Thatcher resolveu não se meter na aquisição da British Satellite Broadcasting pela Sky, empresa que já pertencia ao grupo Murdoch, originando, a partir desta fusão, a British Sky Broadcasting (BSkyB).

É nesse mesmo espaço de atuação, livre das amarras governamentais, que o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, valendo-se das brechas existentes no sistema regulatório italiano, impede a criação de emissoras de televisão comerciais de cunho nacional e, ao mesmo tempo, mantém o controle de três redes privadas de televisão. Além disso, sabe-se que o déspota possui influência também sobre o canal público de televisão RAI, pois tratou de nomear pessoas próximas a ele para atuar em cargos diretivos dentro da emissora.

Os heróis e semi-deuses

É sobre essa lógica perversa que se constroem os personagens animados. Depois, estas figuras passam a ocupar as prateleiras das lojas e supermercados tornando-se heróis, ou, em alguns casos, semi-deuses. A indústria da mídia não deixa os "consumidores" saberem de onde vem o produto, qual o contexto em que foram produzidos e com que intenções foram esteriotipados. Essa reflexão é pessoal e deve ser feita por cada um da maneira que melhor lhe convir.

No mundo das fantasias e do humor contra-revolucionário, Bart Simpson, é um herói. Jovens de todo o mundo admiram sua intransigência e veneram sua ousadia. É o mais próximo de contestar o poder que alguns se permitem chegar. É isso: sentar no sofá e apertar os botões enquanto riem das peripécias do levado personagem amarelo e sorridente. Infelizmente os verdadeiros heróis estão esquecidos, quando não viraram também mercadorias ou piadas (redundância necessária). Hoje é comum ver uma manada de estudantes desfilando com camisas estampando a imagem de Che Guevara, só para ficar em um exemplo atual.

Nessa lógica de consumos simbólicos desprovidos de intencionalidade ideológica e política, a imagem do comandante cubano vestindo a camisa de Bart, soa como algo pertinente. Afinal, os rebeldes de hoje, compram camisas com imagens de guerrilheros numa multinacional qualquer e sentam-se no sofá para ver Os Simpsons, enquanto bebem coca-cola e arrotam ignorância sobre a sua própria história.

sábado, 9 de outubro de 2010

Sobre a política de aparências e a aparência da política

Esquentam-se os ânimos, está em pleno vapor a “fase quente” da corrida presidencial no Brasil. Para começo de conversa, não se pode comparar o candidato caô caô com a neo-petista keinesyana, sobretudo, em relação às políticas sociais. No entanto, ambos têm se deixado enganar por atos falhos, no mínimo, curiosos.

Durante o primeiro turno, Serra fez tudo que podia se esperar do perfeito candidato caô caô, brilhantemente narrado por Bezerra da Silva em sua antologia da campanha eleitoral. Já Dilma, tentando se desligar da imagem militante, seguiu a mesma direção dos demais candidatos, ou seja, preocupou-se mais com a aparência do que com a coerência e acabou deixando a desejar na eloqüência.

A candidata do PT foi bombardeada pela mídia liberal por ter deixado escapulir aquilo que todos sabem e fazem, mas não podem dizer. As doações oficias de qualquer partido estão registradas, porém, as “não oficiais”, o famoso caixa 2, continuam escamoteadas, servindo à máquina de produzir mercadorias políticas e não projetos para o país. Mas, a questão de fundo, que parece não estar sendo pautada nem mesmo nos debates, é outra. Afinal, quando será realizada uma reforma política no Brasil, com ampla participação da sociedade civil e tencionando verdadeiramente coibir esta e outras ardilosas maracutaias eleitoreiras?

Causa certo constrangimento, ou, pelo menos deveria, a forma ridícula com que estes temas são tratados nos veículos de comunicação brasileiros. O Estadão teve hombridade, declarou que é tucanão, ótimo. Assim, acaba-se aquele discurso patético de neutralidade. Mas o principal grupo de comunicação do país, a Rede Globo, insiste em agir sorrateiramente. Deve ser a influência histórica do golpismo e a falta de ética induzindo a conduta de suas produções midiáticas. Acontece que hoje o Jornal Nacional deixou de ser unanimidade, pois, a internet, replicando as produções das mídias comerciais concorrentes e, por determinação conjuntural, governistas, consegue fazer oposição às manipulações da líder de audiências.

O Zé do povo se atrapalhou feio e o Jornal Nacional “não viu. Sua fala foi vexatória, “eu nunca disse que sou contra o aborto, até porque sou a favor, ou melhor, eu nunca disse que sou a favor, até porque sou contra o aborto, alguns até me chamam de atrasado”, declarou o tucano. Quando Ministro da Saúde, durante a era das privatarias no Governo FHC, o Zé caô foi duramente criticado por setores conservadores da igreja católica, após assinar uma lei permitindo a prática do aborto. Agora ele se coloca frontalmente em outra posição, tudo para fazer o que chama de uma “aliança ampla e democrática” com todos os setores importantes da sociedade. Leia-se todos os setores mais conservadores da sociedade.

Não vou entrar no mérito desta discussão, por que a minha posição é bem clara. Embora a prática do aborto constitua em si mesma um crime, da forma como está sendo tratado este assunto no Brasil, encobre-se uma triste realidade. Milhares de mulheres morrem vítimas de abortos clandestinos e falta uma política de saúde pública capaz de não só evitar esses absurdos, como também conscientizar a população das medidas preventivas capazes de evitar estes atos desesperados e inconseqüentes.

Se de um lado o candidato caô ameaça minar o pouco que esse país avançou no sentido de diminuir as desigualdades sociais e corrigir os crimes cometidos à custa de muito trabalho escravo e sangue indígena, do outro, vejo com ceticismo uma perspectiva de mudança política radical no Brasil. Falo de atitudes capazes de romper de vez com a prática neoliberal e, da mesma forma, se opor aos interesses dos latifundiários, banqueiros e empresários corruptos, todos aliados às multinacionais e ao capital financeiro que circula livremente em nosso país, espalhando miséria e degradação humana. O pior é que muitas destas corporações continuam contribuindo fidedignamente com as “doações não oficiais”, esse é o aspecto “pueril” e maquiado da política nacional.

*Volto a escrever no blog por estar engasgado com essa situação e motivado pelos ventos que sopram desde La Higuera, atravessando o coração de todos que se comprometeram em manter viva a primavera. Hasta Siempre Comandante!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

TV dos Trabalhadores: entre conquistas e desafios

O dia 23 de agosto de 2010 ficará na memória dos trabalhadores da região de São Bernardo e Diadema. Mais do que conquistar a concessão de um canal educativo no município de Mogi das Cruzes, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC tem a oportunidade de pôr em prática uma nova forma de se comunicar com a sociedade. Na década de 1980, a TV dos Trabalhadores (TVT) atuava como produtora de vídeos e registrava os acontecimentos mais importantes da luta sindical pela redemocratização do país. De lá para cá muita coisa mudou. Um dos principais líderes da entidade, Luís Inácio Lula da Silva, chegou à Presidência da República e, de certa forma, essa mudança no cenário político acabou propiciando a obtenção da outorga junto ao Governo Federal.

A antiga política de concessões

A conquista do canal deve ser saudada, afinal, foram mais de duas décadas de pressão junto aos governos de turno e muitas negativas. No entanto, essa discussão passa, necessariamente, pelo atual formato de distribuição de outorgas, tanto de canais de televisão, quanto de emissoras de rádio, o qual está completamente defasado. A legislação que rege a radiodifusão no Brasil ainda remete ao Código Brasileiro de Telecomunicações (CBT), de 1962. Cinco anos mais tarde, durante a ditadura militar, o Decreto de Lei nº 236 passava a definir em seu art. 13 que a televisão educativa deveria se destinar apenas à divulgação de programas educacionais, ou seja, transmissão de aulas, conferências, palestras e debates, bem diferente do que se verifica hoje e dos propósitos de comunicação pública contemporânea.

Bem ao gosto dos déspotas de plantão, as limitações desse formato imposto aos canais educativos viabilizariam o controle do conteúdo veiculado e afastariam o fantasma da disputa de publicidade entre as emissoras público-estatais e as concessionárias públicas, atuantes sob o paradigma comercial. Contudo, não demorou para o governo perceber o ótimo negócio que estaria fazendo ao permitir, direta ou indiretamente, o patrocínio de programas transmitidos em canais ditos educativos. Foi assim que, em 1986, através da Lei Sarney, autorizou-se o incentivo fiscal para produções audiovisuais oriundas de canais educativos. Posteriormente essa determinação legal foi revogada, mas, em 1991, a Lei Rouanet terminou por restabelecê-la e aprimorá-la, pois a nova política de incentivos fiscais abriu definitivamente o espaço para as empresas privadas nos canais educativos. Assim, pessoas jurídicas receberam o amparo legal para aplicar uma parte do seu Imposto de Renda (IR) em ações culturais.

Diante disso, cabe refletir sobre o que diferencia, na prática, as emissoras educativas das comerciais. Talvez a proposta de produção de conteúdos e a política de comunicação da TVT possam ajudar a responder essa questão. A idéia da emissora é instigante e provocadora. Pela primeira vez na história da comunicação sindical brasileira, evidencia-se que uma experiência midiática pode concretizar-se em um espaço de luta atualizado ao contexto comunicacional e político vivido. Entende-se que um projeto de comunicação sindical deve estar comprometido com objetivos públicos, o que passa por controle e gestão democrática, com repercussão sobre a programação e o abrigo da diversidade, ainda que a tendência tradicional seja de um modelo unidirecional e fechado, reproduzindo o sistema hegemônico.

Programação e interatividade

Além de contar com produção própria de aproximadamente uma hora e meia de programação diária, a TVT está atenta às demandas da convergência digital e retransmite seus conteúdos, em tempo real, via internet. Programas voltados ao direito do consumidor, previdência social, tributação de impostos, saúde do trabalhador, meio ambiente, inclusão digital, redes sociais, enfim, todos os temas da agenda atual de discussões a nível local e global, estão sendo incorporados neste primeiro momento. Pensando em incentivar a participação da comunidade, a TVT pretende, ainda, disponibilizar câmeras de vídeo aos movimentos sociais, distribuindo os aparelhos na base dos metalúrgicos do ABC, para que, assim, os trabalhadores possam ajudar na construção das reportagens. Seguindo nessa direção, as redes sociais também estão sendo pensadas como espaços de interação com os telespectadores; por isso, foram criados perfis no Orkut, Faceboock e Twitter.

De início, são sete programas, priorizando o conteúdo jornalístico e o acervo da emissora. Seu Jornal, Memória e Contexto, Bom para Todos, Clique Ligue, Melhor e Mais Justo, ABCD Maior em Revista e Boa Gente compõem a programação própria da TVT. Para completar a grade foi estabelecida uma parceria com a TV Brasil, canal público-estatal ligado à Empresa Brasil de Comunicação (EBC). A internet aparece neste cenário como principal aliada na divulgação dos conteúdos produzidos pela TV dos Trabalhadores, sobretudo na obtenção de um público telespectador mais crítico. Sabe-se que apostar nas novas mídias como um espaço de diálogo com a comunidade não é nenhum diferencial em relação à mídia hegemônica, contudo, a participação do público e sua potencial capacidade de tornar-se co-arquiteto das produções audiovisuais configuram-se como alternativa ao modelo de comunicação atual, incluindo-se nesse bojo as próprias emissoras educativas.

Portanto, é indiscutível o protagonismo da TVT enquanto canal de televisão alternativo e, quiçá, contra-hegêmonico. Disputa que não pode se reduzir na forma de conceber o conteúdo audiovisual, ou seja, na administração das técnicas de produção e, até mesmo, distribuição dos programas. O potencial transformador dessa nova manifestação midiática pode, e deve, manifestar-se na perspectiva da organização sindical de abrir espaço para a participação da comunidade. A parceria com canais públicos, o olhar para as novas tecnologias e a aproximação com a base da categoria dão pistas de que, enfim, o movimento sindical também está assumindo a responsabilidade pela democratização da comunicação no Brasil, em seu plano prático. Um exemplo a ser seguido e acompanhado com solidariedade e disposição para seu avanço, por parte da Academia e de toda a sociedade brasileira.

Texto originalmente publicado no site Observatório da Imprensa

sábado, 21 de agosto de 2010

O contexto histórico da atuação sindical e a convergência midiática

A máxima proclamada por Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto do Partido Comunista, em 1948, na qual convocavam os trabalhadores de todo o mundo para que aproximassem suas lutas e enfrentassem os donos do capital, acabou sendo ironicamente apropriada pelos barões da mídia. Ao invés do proletariado de todo mundo unir-se, quem se fortaleceu e, de certa forma, unificou-se incentivando o avanço das novas tecnologias, foram as grandes empresas ligadas ao ramo das comunicações.

Neste cenário, cada vez mais absorto em fetichismos tecnológicos e disputas de audiência, volta-se o olhar para a atuação sindical e o papel estratégico que estas organizações têm ao desafiar o poder estabelecido, agindo, principalmente, no âmbito comunicacional. Tarefa nada fácil, ainda mais se levando em conta que a existência do sindicalismo no Brasil é fortemente marcada pelo controle estatal.

Em 1930, o então presidente Getúlio Vargas toma uma série de medidas para atrelar as organizações sindicais ao Estado. Paralelo a criação do Ministério do Trabalho, da Indústria e do Comércio passa a vigorar o Decreto-Lei n° 19.770, com o objetivo de regular a sindicalização das classes patronais e operárias, controlando a criação e a atuação destas entidades. Ainda neste Governo cria-se a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) a qual, ao aglutinar toda legislação trabalhista, passa a regulamentar as relações que se estabelecem entre patrões e empregados, restringindo a livre associação sindical. Este entulho autoritário do Estado Novo só é rechaçado com a Constituição Federal de 1988, que determina em seu artigo 37, inciso VI ser “garantido ao servidor público civil o direito à livre associação sindical”.

Antes disso, durante a ditadura de 1964, as organizações sindicais protagonizaram um importante movimento de contestação ao Governo Militar. As entidades classistas foram responsáveis por unir as principais lideranças políticas do país que eram contrárias ao regime e passaram a exigir a retomada da democracia e a participação popular nas decisões governamentais. Não obstante, esta postura combativa foi perdendo força ao longo dos anos, atingido seu ápice com a chegada de Luís Inácio Lula da Silva ao poder. A perplexidade e insatisfação de parte da sociedade brasileira frente à política neoliberal adotada pelo atual Governo não foi suficiente para motivar a principal central sindical do país a pressionar o ex-líder sindical por uma mudança de atitude. Situação que acaba se refletindo na falta de identificação de grande parte da classe trabalhadora com o movimento sindical nos dias de hoje.

Diferente das diversas publicações classistas que circularam no Brasil e foram responsáveis pela propaganda operária até o golpe militar, as atuais experiências de mídia, oriundas das organizações sindicais, mesmo estando inseridas dentro do espectro da convergência midiática, continuam deixando a desejar tanto no formato quanto no conteúdo de suas produções. A imprensa sindical que chegou a ter oito jornais diários circulando no Brasil, na década de 1940, conquistou o respeito da classe trabalhadora por que buscava aproximar-se da sua realidade. No entanto, ao seguir cegamente a linha ditada pelo Estado Soviético, a imprensa daquela época sucumbiu, pois, com o passar do tempo, nada mais dizia sobre a realidade local.

Muito mais atentos aos avanços das tecnologias de comunicação, os principais grupos econômicos multinacionais, atuando por meio dos grandes conglomerados de mídia, se beneficiaram da falta de interferência do Estado na regulação da atividade econômica e da pouca pressão exercida pelas organizações sindicais visando o controle dos grupos privados. Assim, as empresas voltadas ao setor de comunicação acabaram diversificando a oferta de produtos sem maiores restrições. A convergência permite, por exemplo, que em um mesmo pacote possam ser incluídos serviços de telefonia fixa, móvel, internet e TV a cabo. Ao ter acesso às novas tecnologias e utilizar os serviços disponíveis o trabalhador sente-se contemplado e inserido neste novo bios midiático, embora não diversifique o consumo de conteúdos.

É neste espaço que devem atuar as organizações sindicais, pois, com a convergência midiática, a classe trabalhadora passa a configurar-se também como produtora de conteúdo, deixando de ser mera consumidora de informação. Os grandes conglomerados de comunicação cada vez mais oferecem recursos midiáticos criando a ilusão de que os trabalhadores estão inseridos no universo produtivo, porque permitem que eles disponibilizem conteúdos na internet, mesmo que sejam todos muito semelhantes e, em geral, acríticos. Às organizações sindicais cabe o papel de aproximar-se dos trabalhadores, fornecendo em seus canais de comunicação espaços de verdadeira atuação política, os quais devem permitir a crítica ao Governo e, assim, renovar também o próprio movimento sindical.

Texto originalmente publicado na Revista do Instituto Humanitas da Unisinos 338, ano X, de 9 de agosto de 2010.
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domingo, 15 de agosto de 2010

Da estética do medo ao medo da estética

É cada vez mais comum a espetacularização do processo eleitoral por parte das grandes emissoras de TV no Brasil. Sob os holofotes da mídia, a arte de fazer política manifesta-se ideologicamente e perdura, de modo a adaptar-se historicamente ao contexto sócio-cultural de cada região.

Aliados a esse movimento, os responsáveis por planejar e operacionalizar as ações de marketing político elaboram estratégias que diferenciem seu candidato dos demais, dando-lhes, muitas vezes, uma credibilidade de ordem meramente performática. O estrategista de marketing substitui as instâncias partidárias.

Diante disso, a imagem do político contemporâneo tende a sobressair menos pelas propostas e pelo programa de governo e mais por sua relação com elementos midiáticos e demandas detectadas por pesquisas de mercado. Sua capacidade de apresentar uma proposta alinhada com o ideal de sociedade de uma determinada fração social é preterida, gerando a pasteurização de candidatos e partidos políticos. O público, por sua vez, não é visto como mero espectador, mas sim, como um eleitor participante, ou seja, alguém acostumado ao fascínio das produções audiovisuais, porém incapaz de assimilar seus códigos de maneira crítica, convertendo em voto a baixa interação com o candidato midiatizado.

A tática do PSDB

Ao fazer um breve exercício de reflexão das práticas eleitorais, especialmente nas últimas três décadas, percebe-se a presença da arte cênica em maior ou menor escala. Esta atuação artística não se resume à interpretação do próprio candidato, mas, sobretudo, à possibilidade de poder contracenar com atores de renome ou personalidades em evidência nos principais canais de televisão. Na medida em que artistas conhecidos se filiam a determinados projetos políticos, em geral com a mesma motivação com que fecham contrato para anunciar outros produtos, conforma-se uma manobra eleitoral, nociva à democracia.

Um caso que acabou tornando-se emblemático nesse tipo de relação ocorreu nas eleições presidenciais de 2002. Na época, a atriz Regina Duarte declarou que sentia medo do que poderia acontecer caso o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva saísse vitorioso no pleito presidencial. A fala da atriz foi transmitida durante o horário eleitoral gratuito, em defesa da candidatura do ex-governador de São Paulo José Serra, derrotado naquela ocasião e, hoje, novamente candidato à Presidência da República, sempre pelo PSDB.

É importante dizer que, mesmo com a derrota tucana nas urnas, o medo de Regina Duarte não chegou a se confirmar. O governo do presidente Lula manteve a política econômica de seu predecessor, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), promovendo reformas de inspiração neoliberal e nomeando economistas filiados a esta corrente de pensamento para assumirem cargos estratégicos em sua gestão. De qualquer forma, a tática utilizada pelo PSDB, vinculando a imagem de Serra a uma atriz global, historicamente conhecida como namoradinha do Brasil, não foi totalmente fracassada.

Oposição artístico-política

O medo expressado pela atriz representava a desconfiança do mercado financeiro com o ex-líder sindical. Isso repercutiu dentro da própria candidatura Lula, pois o candidato petista apressou-se em deixar claro que priorizaria o crescimento econômico, mantendo a inflação baixa, os juros altos, a oscilação cambial brusca e o aumento da dívida pública. Foi sob estes termos que Luiz Inácio Lula da Silva assinou a Carta Aberta ao Povo Brasileiro, em 2002. O alerta deu certo e guinadas fora da cartilha econômica neoliberal foram descartadas.

O fato é que, enfaticamente no Brasil, a teledramaturgia, o cinema e a música são capazes de fabricar legítimos representantes dos anseios populares, os quais são aceitos pelo público com muito mais naturalidade do que os construtos políticos poderiam fazer. Essa dinâmica é responsável por um novo fenômeno, no qual músicos, apresentadores e artistas têm ascendido a cargos públicos eleitorais com enorme facilidade, rebaixando o discurso político e desqualificando o processo democrático.

Para piorar esse quadro, percebe-se que a militância social, quando transformada em produto midiático, costuma traduzir-se em oportunismo. No ano de 2007, por exemplo, surgiu no Brasil o Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros. Conhecido popularmente como Cansei,foi organizado porartistas e empresários, visando à desestabilização do governo federal. Usando como pretexto um acidente aéreo, que vitimou dezenas de pessoas, forjou-se uma espécie de oposição artístico-política, amparada na imagem de seus protagonistas. Novamente a namoradinha entrou em cena, para, lado a lado com a cantora Ivete Sangalo e a apresentadora de TV Hebe Camargo, transformar-se em ícone de tal malogro.

Atrair, e não assustar

Existe, portanto, uma clara intenção de caráter político-partidário em produzir efeitos de reconhecimento e pertença no público por parte dos agentes que estabelecem campanhas, direta ou indiretamente eleitorais, em que a presença das celebridades televisivas é o principal foco daquilo que constitui a disputa política, embora não necessariamente se apresente como tal. A empatia dos eleitores com seus ídolos permite a identificação – ideológica, mesmo que mascarada – com uma corrente de pensamento, tencionando e influenciando as decisões do eleitorado.

Não obstante, este ano, as estratégias de marquetização do PSDB apontam para uma mudança de paradigma. Ao exibir como mestre de cerimônias da pré-candidatura de José Serra a modelo e apresentadora televisiva Ana Hickman, o partido parece ter aprendido que assustar pode ser menos vantajoso do que atrair o eleitor. Sendo assim, tudo indica que o discurso receoso de Regina Duarte, característico nas campanhas anteriores, tornou-se obliterado. Do mesmo modo, apostar na simpatia do ex-governador de São Paulo seria, tampouco, prudente, já que neste quesito o presidente Lula é imbatível e sua popularidade está canalizada para a campanha de Dilma Rousseff, ainda que ela e Serra compartilhem a dificuldade de se aproximarem das formas de ser e estar do brasileiro médio.

Texto originalmente publicado no site Observatório da Imprensa, em 18/5/2010.

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