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quarta-feira, 20 de julho de 2011

O que Murdoch, Teixeira e a Seleção Brasileira de Futebol têm em comum?

O escândalo das escutas ilegais, na Inglaterra, acabou freando as negociações da News Corporation com a British Sky Broadcasting (BSkyB). A meu ver, trata-se de um fato impensável há poucos meses atrás. Para queimar a minha língua - e como é bom que isso tenha acontecido - essa transação não se concretizou.

Em maio deste ano escrevi um artigo para a edição 360 da Revista do Instituto Humanitas Unisinos (IHU On-Line), onde, entre outras coisas, afirmava: “a News Corporation obteve o sinal verde para evitar uma análise da operação e começar a negociar os termos do acordo do contrato, efetuando a compra total das ações da transmissora de TV por satélite BSkyB, algo em torno de 14 bilhões de dólares” (Ver aqui). Sim, eu dava como certa a compra do restante das ações da rede de TV britânica pelo magnata das comunicações Rupert Murdoch, atualmente proprietário de 39% dos títulos. Parecia algo tão claro como a impossibilidade da seleção brasileira errar quatro cobranças de pênalti, em sequência, nas quartas de final da Copa América.

Murdoch escuta demais e enxerga de menos

A transação estaria efetivada, não fosse a prepotência de Murdoch. Justificada apenas pelo seu desatino megalónomo de onipresença. Pois é, quem diria? Na semana passada, os parlamentares ingleses já estavam com uma moção prontinha para minar com as pretensões de um dos mais temíveis velhacos das indústrias da comunicação mundial. Assim, a News Corp. se viu obrigada a recuar, principalmente após o fechamento do News of the World, publicação inglesa que chegou a liderar o ranking dos tablóides mais vendidos no mundo.

O escândalo dos grampos ilegais criou um cenário digno de filme de espionagem. No qual centenas de pessoas públicas têm suas intimidades controladas por uma espécie de “cafetão” da chamada “imprensa people”. A postura do parlamento britânico - que poderia ter sido adotada antes, caso houvesse vontade política para isso - só se justifica pelo receio dos congressistas em entrar na mira do orelhudo internacional. Por outro lado, o fim do tabloide e a impossibilidade em concretizar a compra do restante das ações referentes à BSkyB não acabam com o poder de Murdoch. Através da News International, sobretudo com a penetração de The Sun e The Times, o magnata continua exercendo forte influência nas decisões políticas do país.

No Brasil: Teixeira fala demais e escuta muito pouco

Seria engraçado, não fosse revoltante, a forma como os donos do poder se portam perante a opinião pública. Enquanto Murdoch se acha no direito de usar de qualquer subterfúgio possível para ter acesso à vida privada de políticos, celebridades e nobres britânicos, o “rei do futebol brasileiro”, - não estou me referindo a Pelé, este pode ser considerado, no máximo, príncipe, se comparado ao verdadeiro dono da bola no Brasil – mister Ricardo Teixeira, sente-se no direito de falar o que bem entender. Afinal de contas já foi cotado até para suceder Joseph Blatter no comando da FIFA e, na época, o “príncipe Pelé” fez questão de manifestar apoio inequívoco ao "rei".

Em recente entrevista concedida à revista piauí, Teixeira fez pouco caso das investigações judiciais que o acusam de estar envolvido em crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e sonegação fiscal. O processo esteve em evidência há mais de dez anos, época em que a CPI da CBF/Nike foi arquivada pelo Ministério Público. Isso só fez aumentar a sensação de poder absoluto do genro de João Havelange, ex-presidente da extinta Confederação Brasileira de Desportos (CBD), de 1956 a 1974, hoje Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Em sua declaração pública, o verdadeiro “rei do futebol brasileiro”, disse estar “cagando” para as denúncias que circulam na mídia, pois, segundo relata, só ficará preocupado “quando as acusações saírem no Jornal Nacional”. A fala arrogante e o perfil autoritário são marcas do desvario magalómano que, além de Murdoch, também o atinge. Mania de grandeza assegurada pela atuação em conluio com o maior conglomerado de mídia da América Latina. Rede Globo e Ricardo Teixeira têm uma relação antiga, onde o silêncio da família Marinho sobre os processos e negociações do presidente da CBF assegura a hegemonia dos direitos de transmissão dos jogos das "celebridades futebolísticas”.

Os "Astros" da Seleção falam e escutam pouco, mas enxergam menos ainda

Não quero mexer com as paixões do brasileiro. Não sou louco nem nada. Mas é preciso cavoucar um pouco mais o buraco no qual a Seleção Brasileira de Futebol caiu. Não é nada disso. Não estou me referindo àquele pequeno desnível na marca do pênalti, o qual, segundo os jogadores, prejudicou os arremates finais na partida contra o Paraguai, válida pelas quartas de final da Copa América.

O buraco que me refiro é mais em baixo. Eu sei, está cada vez mais difícil de vestir com orgulho a camisa da Seleção e isso nada tem a ver com resultados. O problema é a identificação com o simbólico. Essa aproximação é fruto de uma mistura pretensiosa, capaz de, pouco a pouco, alienar o mais fiel torcedor e levá-lo a descrença total no futebol. Basta somar a influência de Teixeira nos bastidores da cobertura futebolística com a hiper-valorização da publicidade em torno dos "notáveis boleiros" e, para finalizar, ter de assistir aos jogos por intermédio da linguagem pedante da Rede Globo.

Só podia dá “m....”. Opa! Desculpa. Prefiro não utilizar palavras de baixo calão neste post. Não quero correr o risco de ser mal interpretado. Voltando ao que interessa, preciso ser franco, é “f...” ver Mano Menezes de garoto-propaganda da AmBev; Ganso, Neymar e Robinho dançando com a camisa canarinho na propaganda da Seara, ao som de “Single Ladies”, e por aí vai. Neymar é o artilheiro e protagonista da maioria dos comerciais. Nike, Nextel, Guaraná Antártica e até talco desodorante para os pés fazem parte da promissora carreira do garoto de 19 anos, símbolo do "futebol-arte". Qual o resultado de toda essa exposição midiática? Sair em destaque na revista Veja, com o título “Reymar” estampado bem na capa.

A midiatização do menino da Vila é boa para o chefão do futebol nacional. O tal “Reixeira” dificilmente tem seu império contestado nos meios de comunicação tradicionais. Claro, alguém dirá: - e a Record? Sim, esta emissora entrou em pé de guerra com a Globo. Mas, infelizmente, não passa de mera disputa por audiência. Nada mais do que isso. Edir Macedo ficou mordido com a perda dos direitos de transmissão da Copa do Mundo e, recentemente, do Campeonato Brasileiro. Por essas e por outras permite que os ex-globais Paulo Henrique Amorim, Rodrigo Vianna e Luiz Carlos Azenha desçam o pau em Teixeira e sua fiel escudeira. Olha, em briga de Bispo e família capacho do Regime Militar é melhor não tomar partido, pois, se mexer nessa cumbuca, vai feder para os dois lados.

Podres poderes: é hora da mobilização popular

Estão acabando com a alegria do povo. Como já disse aqui, em outro post, hoje tem dia e hora para assistir futebol. Acontece que o acordo em relação a datas e horários ocorre longe da opinião dos torcedores. Atende única e exclusivamente aos interesses dos canais privados. Fora isso, nos noticiários, informações verdadeiramente importantes, como o caso dos grampos na Inglaterra, são veiculadas sem a devida contextualização dos fatos e, propositadamente, não se debate a regulamentação da mídia, assunto de extrema relevância para se concretizar a democratização da comunicação no Brasil.

Resultado: Teixeira dá um "bago" na democracia, mandando-a às favas; Murdoch escuta a caixa registradora tilintar, lucrando em ritmo de goleada, e os jogadores da Seleção reclamam do gramado, chutando a bola nas arquibancadas. Deve ter sido em sinal de protesto. Só pode. Aonde já se viu “jogatores” (jogadores + atores) terem de se apresentar em palco tão inapropriado? Resta, a nós, os “torcepectadores” (torcedores + espectadores) ressuscitarmos o espírito aguerrido das expressões populares, constantemente presente nas atividades esportivas. Quiçá possamos reclamar deste verdadeiro circo, ao qual somos submetidos diariamente, e, nesse sentido, tenhamos força suficiente para promover a subversão do quadro atual.

Quando nos dermos conta do quanto as coisas estão intimamente conectadas, entenderemos melhor o novo bordão da família Marinho: "Globo - A gente se liga em você". Ao invés de bola, talvez “cabeças comecem a rolar”, no bom sentido é claro, falo em destronar alguns reis da mídia. Para isso, contudo, é necessário resgatar a indignação. Estamos acostumados a driblar adversidades, mas precisamos de entrosamento. Temos que realizar mais coletivos. Partindo para o ataque, sem descuidar da defesa e armando boas jogadas no "meio", certamente chegaremos ao gol. Essa vitória o Galvão Bueno não vai querer narrar, ou ainda, "essa conquista não será televisionada".

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Democratizar a comunicação no Brasil: um exercício de independência, autonomia e protagonismo

No último sábado, 9 de julho, por ocasião de mais uma edição do Cepos Debates, eu e o amigo Anderson Santos estivemos presentes em Bagé. Enquanto componentes do Grupo de Pesquisa Comunicação, Economia Política e Sociedade (Cepos), fomos conversar com estudantes da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), representantes do governo local (PT) e lideranças do movimento sindical da cidade, sobre a urgência de se trabalhar no sentido de democratizar a comunicação no Brasil.

Com um quórum pequeno, mas muito interessado e, portanto, responsável por qualificar o debate, acabamos por ser indagados sobre uma série de questões expostas previamente. A principal intenção do Cepos, quando promove atividades como esta, é incentivar o diálogo sobre as políticas de comunicação e as mais variadas questões relacionadas ao estudo do audiovisual, foco principal das pesquisas realizadas pelo grupo, o qual é vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

Nem todos ficam até o final

De início, procuramos contextualizar o cenário onde se insere o debate em questão. Com um marco regulatório defasado e incapaz de dar conta do atual momento das comunicações no país, fica difícil pensar em democratizar a mídia. O Código Brasileiro de Telecomunicações, vigente ainda hoje, é de 1962. Ele sofreu algumas mudanças durante o regime militar, em 1967, e, posteriormente, teve o incremento de legislações específicas, mas, como era de se esperar, nenhuma delas foi capaz de modificar o cenário de concentração da mídia brasileira. Durante a realização da Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), em dezembro de 2009, foram aprovadas várias proposições sugerindo, inclusive, a revisão do marco regulatório e apontando para a importância de, ao menos, serem respeitadas algumas das regras já em vigor.

De mãos dadas com a Globo
Dentre elas, encontra-se a proibição de que parlamentares sejam donos ou sócios de veículos de comunicação, pois, teoricamente, eles não deveriam legislar em causa própria. Prerrogativa essa, que, além de não ter sido cumprida até mesmo durante o Governo Lula, torna-se ainda mais preocupante se for levado em conta a perseguição do Ministério das Comunicações ao movimento de radiodifusão comunitária, sobretudo durante o mandato do ex-repórter da Rede Globo, Hélio Costa. Ao assumir a pasta das Comunicações, em 2005, o então senador do PMDB era proprietário da rádio Sucesso FM, em Barbacena, Minas Gerais. Devido as pressões sofridas pela Comissão de Ética Pública da Presidência da República, Costa repassou o controle da emissora ao seu Chefe de Gabinete, José Artur Filardi Leite, e, posteriormente, também lhe endereçou o cargo de ministro das Comunicações para, assim, poder concorrer ao governo de Minas, na última eleição.

Infelizmente nem todos estão a fim de refletir sobre essas relações inescrupulosas. Preferem continuar acreditando na ausência de contradição, como se ainda fosse possível acessar o discurso utilizado por Lula na década de 1980, retratado em um documentário produzido pela BBC, que ficou conhecido no Brasil como Muito Além do Cidadão Kane. No entanto, é impossível negar que o resultado das alianças políticas do PT acabou por suplantar a retórica do ex-presidente. Dados da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (ABRAÇO) revelam: de 1995 (início do Governo FHC) até 2007 (durante o Governo Lula), três mil rádios e TVs comerciais tiveram suas multas perdoadas, ocasionando um custo de mais de oito milhões aos cofres públicos. Esta mesma benevolência não se aplicou às rádios comunitárias e seus comunicadores. Cerca de 30 mil trabalhadores da comunicação popular estão sendo processados no país, mesmo após ser aprovada uma resolução para anistiá-los durante a realização da Confecom.

Descentralizar o debate para incentivar o exercício do direito à comunicação

No início de junho estive acompanhando outro companheiro do Grupo Cepos, Bruno Lima Rocha, em uma conversa realizada na cidade de São Leopoldo junto ao Sindicato dos Metalúrgicos da região. A exemplo do que se pôde perceber em Bagé, o público presente mostrou-se interessado em operar suas próprias ferramentas de mídia. Para além da inserção de campanhas salariais nos grupos de comunicação privados e da publicação de jornais do sindicato, os quais possuem uma linguagem difícil e, muitas vezes, não atingem nem mesmo a base da categoria, o rádio foi o instrumento de comunicação mais lembrado. Seja pela viabilidade do projeto, em função do baixo custo, ainda mais se comparado a uma emissora de TV, ou, até mesmo, pelas novas possibilidades de utilização desses veículos. Com a convergência digital é possível investir na criação da rádio web, que, posteriormente, pode se transformar em um canal comunitário ou educativo.

Comunicação alternativa: da contra-informação à contra-hegemonia

Em agosto de 2010, entrou no ar, na cidade de Mogi das Cruzes - SP, a TV dos Trabalhadores (TVT). Esta emissora, que recebeu concessão para operar um canal educativo, é ligada ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, filiado à Central Única dos Trabalhadores (CUT). Os metalúrgicos do ABC estavam há mais de duas décadas na luta pela obtenção da outorga. Durante o Governo Sarney - recordista em distribuir concessões de rádio e TV para apadrinhados políticos - o então deputado federal e co-fundador da TVT, Luiz Inácio Lula da Silva, liderou uma comitiva que foi até o Ministério das Comunicações, chefiado a época por Antônio Carlos Magalhães, para tentar negociar a aquisição da licença. Da forma como se estrutura esse processo, obviamente o Sindicato não conseguiu receber a autorização. O que só ocorreu recentemente, quando, de certa forma, se inverteu a hegemonia política na composição do governo.

Essa vitória da TVT, possível somente diante do atual cenário político, não deixa de configurar uma importante conquista dos movimentos sociais e da classe trabalhadora, muito embora a efetivação desse processo tenha se dado nos mesmos moldes do que sempre aconteceu no país. Na verdade, são duas discussões diferentes. De um lado, como já disse, a importância de rever a forma como se viabiliza a obtenção e renovação de outorgas, seja para os canais educativos e comunitários, seja para os comerciais. De outro, a evidente ruptura com o atual perfil dos beneficiários, em sua maioria ligados a igrejas pentecostais ou congressistas conservadores.

Na década de 1980, período de redemocratização do Brasil e momento no qual surgem experiências como a TVT, o conceito empregado para se pensar a comunicação alternativa era o de contra-informação. O alvo estava claro. Havia uma informação circulante na mídia privada - entenda-se privada em seus dois sentidos: concessão pública destinada a um grupo de mídia privado para operar o serviço de radiodifusão, ou, ainda, como privada mesmo, local onde se depositam excrementos, como é, em sua maioria, a programação destes canais - que era, evidentemente, contrária aos interesses da classe trabalhadora.

Com a chegada do PT ao Governo essa necessidade de promover a contra-informação se complexifica. Por isso, é importante renovar o conceito na mesma medida que é preciso renovar, também, a prática dos movimentos sociais dedicados à democratização da comunicação. Dependendo da aplicabilidade desta contra-informação pode estar se utilizando, apenas, do discurso não-hegemônico. Embora a comunicação público/estatal deva, em certa medida, se opor a lógica da comunicação comercial - hoje dominante no Brasil - não representa uma ruptura com o poder político-econômico vigente.

Nessa medida, atenta-se para a urgência da promoção de espaços midiáticos destinados à contra-hegemonia. Entendida, aqui, como as manifestações sociais, em âmbito comunicacional, constantemente preocupadas em disputar poder com as forças dominantes, estejam elas estabelecidas no Estado ou no Mercado. Só uma comunicação essencialmente pública, tanto na gestão, quanto no modelo de propaganda, pode tencionar essa estrutura de comunicação oligopolizada, que perpassa todo um arcabouço ideológico-cultural e redunda na insuficiência das políticas de comunicação em curso no Brasil.

domingo, 26 de junho de 2011

Educando para o consenso de classes

Com esta postagem, o blog Exílio Midiático completa um número, ainda pequeno, de 100 publicações. Desde o início, procura-se tratar de assuntos relacionados ao modo de operar dos grandes meios de comunicação e seus reflexos para o conjunto da sociedade. Tal prerrogativa não impede imersões no mundo literário e seus correlatos, pelo contrário, permite uma aproximação entre o trabalho material e reflexivo, buscando superar as distinções relativas à atividade social.

A característica principal deste veículo é a busca pelo contraditório; a excelência da crítica, livre de pressões políticas e econômicas. Seja de patrocinadores, patrões, linhas editoriais ou direcionamentos partidários. A reflexão é construída por meio de princípios éticos e, por conseguinte, ideológicos. Utilizam-se como únicos pressupostos o compromisso social e o entendimento de que a problematização dos fatos deve ser exposta da forma mais clara possível. Mesmo considerando a real abundância de espaços similares a este na internet, procura-se, de alguma forma, contribuir para o processo que visa à democratização da comunicação, amparando-se no protagonismo.

Historicamente as práticas sociais se estabelecem imersas na divisão do trabalho. Ao longo dos anos, nobres e plebeus, capitalistas e proletários, intelectuais e trabalhadores encontram-se em constante contradição e distanciamento. Não apenas sob o ponto de vista econômico, mas, também, quanto ao direcionamento das atividades que, supostamente, competem a cada um realizar. É a escravidão do livre pensamento; o enclausuramento de sonhos e potencialidades; a mordaça invisível, das forças dominantes, para calar a voz dos oprimidos. Ditam-se regras e estipulam-se locais de fala. Determina-se, por exemplo, "quem manda" e "quem deve obedecer". São estabelecidas normas de conduta, as quais produzem o convencimento para impossibilitar a ação.

Em meio a essa conjuntura surge, ainda, a diferenciação entre trabalho “intelectual” e “material”. Como se o trabalhador não pudesse, a exemplo do que se procura fazer aqui, desempenhar mais de uma atividade concomitantemente. Prática exercida para além da exigência profissional e da garantia de subsistência. Influenciada tão somente pela ânsia de saciar a vontade de escrever sobre as inquietações do momento e contribuir à reflexão-ação.

O atual receituário da sociedade capitalista refunda preceitos antigos. Não se pode ser músico, escritor, jogador de futebol e trabalhar na indústria. O exercício de muitas atividades, inevitavelmente, prejudica a produção material e, nesse sentido, se opõe à fragmentação e à especialização da mão de obra, próprias desse sistema. Em caráter subliminar, despreza-se o ócio para recompensar a subordinação passiva às tarefas estipuladas. É o princípio da meritocracia, hoje, presente, até mesmo, nos espaços onde deveria ser motivo de repulsa.

"O funcionário do mês", “o professor do ano”, “o primeiro aluno da classe”. Essas representações sociais, seletivas e excludentes, reforçam o individualismo e, subjetivamente, formalizam contratos nefastos, muitas vezes involuntários. São acordos estabelecidos entre exploradores e explorados, governantes e professores, estes últimos e seus alunos. Pela lógica da produção em série, nem mesmo o trabalho intelectual foge à regra, sendo de grande valia para os proprietários privados da escrita acadêmica.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Revoltas, revoltosos e atitudes revoltantes...

A recente midiatização das revoltas árabes e das manifestações européias, por parte da mídia comercial brasileira, evidencia o jogo sujo da manipulação midiática. Na busca aviltante pela defesa dos interesses do capital financeiro descarta-se o caráter político das práticas sociais, rebaixando-as ao campo tecnológico e, nesse sentido, descaracterizando as reais potencialidades dos movimentos organizados.

Redes sociais, como o Facebook, estariam contribuindo decisivamente para concretizar avanços democratizantes em cada região sublevada. Criam-se neo-revolucionários, os quais são descritos como “bem educados e insatisfeitos com as restrições à liberdade”. Aparentemente não assustam os donos do poder, sobretudo os Estados Unidos, pois estariam operando no limite da confrontação política, em caráter local. Na prática, evidencia-se o contrário; um movimento autoproclamado altermundista, no qual a internet tem caráter meramente instrumental e sua força de atuação manifesta-se na coletividade resultante da ação direta.

O que está sendo publicizado pela mídia convencional não contribui, por exemplo, para desmoralizar a ordem política e econômica responsável por sentenciar o fim do Estado do Bem-Estar Social - Welfare State - na Espanha, bem ao gosto da Comissão Européia e do FMI. No mesmo sentido, essas construções midiáticas em nada têm ajudado a explicar o desprezo da população grega para com os principais partidos políticos do país, tanto o Conservador, quanto o Socialista. Há décadas ambos se revezam no poder sem, no entanto, modificarem as relações de exploração e as injustiças sociais. Redução de salários, aumento real do desemprego, carência na prestação de serviços públicos e piora da condição material de vida da população contribuem para o crescimento das pressões por parte dos movimentos sindical e estudantil.

Por seu turno, a suposta democratização dos países árabes conta com a fiscalização intransigente do Departamento de Estado norte-americano. Em outros tempos, Estados Unidos e Inglaterra já foram aliados do ditador líbio, Muammar Kadafi, mas a lógica estadunidense, do complexo industrial-militar, opera sob a égide da corrida armamentista e, nessa direção, tomam-se atitudes capazes de assegurar o controle do Império, ou ainda, que não deixem a economia arrefecer. Nos anos 80, o então presidente dos EUA, Ronald Reagan, investiu no aumento do arsenal militar e, mesmo após o trauma da derrota na Guerra do Vietnã, contou com o apoio massivo da população para sua investida contra os países árabes. Reagan soube utilizar muito bem a imagem do tirano Kadafi e, conseqüentemente, sua representatividade enquanto potencial ameaça terrorista, como hoje o faz Barack Obama.

Embora pouco se discuta, as sublevações árabes e européias apresentam aspectos de confrontação histórica que ultrapassam o campo de domínio da democracia liberal e seu fetichismo tecnológico. Para além das reformas democráticas deve-se evidenciar a crítica ao autoritarismo, a busca pela efetiva distribuição de poder e a rejeição ao modelo neoliberal. Na Espanha, os manifestantes têm tomado as ruas para expressar um fervoroso descontentamento com as reformas postas em curso pelo governo do socialista José Luis Rodríguez Zapatero. A motivação do movimento, conhecido por indignados, até pode ser encarada sob o ponto de vista do interesse particular, mas só costuma atingir proporções de real pressão ao poder institucionalizado quando manifesta-se em caráter coletivo.

A luta contra a redução das proteções sociais e flexibilização das relações trabalhistas, atualmente em curso, confronta-se diretamente com a lógica neoliberal, mas, propositadamente, seu processo histórico deixa de ser problematizado pela mídia. Desse modo, ignora-se a disputa de classes e não se reivindica a necessidade de superação do modelo econômico vigente. A ênfase clássica recai sobre falsas democracias, falsos insurretos e falsas noções de liberdade, inculcadas no conjunto da população por meio de acepções liberais, sem a devida contextualização dos fatos.

domingo, 19 de junho de 2011

A mercantilização das paixões nacionais

Já dizia o poeta, “para falar em amor, é preciso estar sofrendo”. Veja bem, não me refiro apenas àquele amor não correspondido pelo ser amado, pois, hoje em dia, este sentimento parece capaz de se manifestar nas mais variadas expressões da vida material. O que é uma lástima. É o amor ao supérfluo. Não é paixão verdadeira. Esta última, aliás, tem, como principal característica, elevar os sentidos ao grau sublime do desatino e, por outro lado, extinguir sonhos com a celeridade impertinente da temida realidade.

Não dá para negar, no Brasil, futebol, mulher e samba são paixões nacionais. Contudo, os objetos responsáveis por configurar as relações constitutivas destas paixões, não são, por si só, elementos capazes de provocar tais delírios. Constituem-se em meras alegorias. Ninguém ama a bola. Quando está ali, parada, no meio do campo, a bola é só um corpo esférico de borracha. Não tem a mínima graça. Ganha vida com o toque humano. É neste momento que se criam as expectativas quanto ao seu percurso, o qual, vencendo a linha demarcatória do gramado, pode, ou não, ocasionar a alegria do torcedor.

Já a mulher é bela e irresistível por natureza. Quanto menos ornamentos forem utilizados, mais visível ficam seus encantos, menos espaços existem para controlar a razão e, tanto mais, se deixa de lado o supérfluo para valorizar a agradável revelação de sua essência. Roupas, brincos e sapatos não chamam a atenção quando ficam expostos em lojas. Tornam-se apenas acessórios. Estão lá, imóveis, incapazes de provocar qualquer tipo de atração. Para despertar interesse precisam estar inseridos no contexto do corpo feminino. Fora isso, não passam de mercadorias sem vida.

Com o samba ocorre algo semelhante. É a manifestação encantadora, pura e autêntica das nossas raízes. É o consolo do que sofre e o estopim para incendiar, de uma vez por todas, a vida do contente. Violão, cavaquinho, surdo, repique, tantã, pandeiro, nada disso faz sentido sem o toque especial de quem entende do assunto. Ele expressa todo o seu sentimento na execução conjunta da harmonia musical. É a arte da batucada, sem apego ao requinte e sofisticação. O improviso, movido a paixão, transforma mesas em tambores e qualquer lugar serve de passarela.

Por tudo isso, é constrangedor verificar a mercantilização das verdadeiras paixões humanas. A imposição econômica seqüestra os sentimentos, sobretudo pelo valor de custo a eles agregado. A bola, improvisada nas zonas de várzea, custa caro nos campos de futebol. O estádio, sede do evento futebolístico, estipula o seu valor de mercado selecionando a entrada dos torcedores. Dirigentes, comissão técnica e jogadores faturam milhões nos times considerados "grandes". Valor este mensurado pelas conquistas dentro e fora de campo, graças aos recursos advindos de patrocinadores.

As mulheres procuram, cada vez mais, espaços de atuação e protagonismo social, político e econômico. Não estão focadas apenas no mercado de trabalho, mas passam a atuar, também, nas instâncias de poder. Hoje, a presidente da República é mulher. Das dez ministras do seu governo, o dobro do que existia na gestão de Lula, pelo menos duas ocupam cargos de destaque. Gleisi Hoffmann e Ideli Salvatti estão, respectivamente, na Casa Civil e no Ministério das Relações Institucionais. Neste caso, beleza e charme tornam-se alegorias. A paixão manifesta-se para além da imposição cultural. Enfim a sociedade parece estar vencendo estigmas.

Na verdade, nem tudo são flores. A reconfiguração da sociedade capitalista, em sua versão pós-moderna, possibilita que o samba de raiz perca espaço para as mais variadas versões do rentável pagode. Na maioria das rádios comerciais é a venda fácil das melodias massificadas que preenche as "paradas de sucesso". Os canais de televisão utilizam esta "nova" melodia como instrumento de mercantilização do corpo feminino. O sambista, que faz do prato e da panela instrumento, perde espaço para os adestrados "dubladores de auditório". É o jabaculê criando e recriando sucessos, com o caixa jorrando dinheiro para empresários de ocasião. Enquanto isso, a paixão deixa de ser a expressão dessa arte para virar tema de canções industrializadas. Sua substância se perde nos holofotes da encenação. Assim, embora se modifiquem os atores sociais, continua-se escanteando a diversidade. Os novos governantes parecem pouco preocupados em distribuir poder. Operam, aparentemente, na contramão da sociedade machista, sem eliminar o seu aspecto autoritário.

Há quem diga que as desigualdades diminuiram substancialmente no Brasil. Agora, a população estaria mais consciente e o voto seria reflexo deste processo. Afinal de contas, o futebol "profissionalizou-se", a mulher está ocupando "postos-chave" no governo e o carnaval atrai turistas de todo o mundo para o “país do crescimento econômico”. Infelizmente, quem sai às ruas para trabalhar, todo dia, vê pouca diferença. A mulher precisa sapatear, e muito, para continuar dando conta da dupla jornada de trabalho. O futebol já tem dia e hora, estipulados pela televisão, para entrar na vida e na casa dos brasileiros. E, para completar, está determinado: é nos domingos que todo mundo samba, "dança com famosos", ou algo parecido. Tanto o trabalho, quanto o “lazer”, passam a reprimir o verdadeiro descanso. Homens e mulheres seguem apáticos em frente ao televisor. Estão ávidos por amar, no entanto, parecem, não mais, saber como fazê-lo. Querem sair para curtir um partido alto, jogar aquela pelada com os amigos, mas não podem. Está quase na hora de começar tudo outra vez. O domingo já se foi e, amanhã, é segunda-feira!

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