
Em maio deste ano escrevi um artigo para a edição 360 da Revista do Instituto Humanitas Unisinos (IHU On-Line), onde, entre outras coisas, afirmava: “a News Corporation obteve o sinal verde para evitar uma análise da operação e começar a negociar os termos do acordo do contrato, efetuando a compra total das ações da transmissora de TV por satélite BSkyB, algo em torno de 14 bilhões de dólares” (Ver aqui). Sim, eu dava como certa a compra do restante das ações da rede de TV britânica pelo magnata das comunicações Rupert Murdoch, atualmente proprietário de 39% dos títulos. Parecia algo tão claro como a impossibilidade da seleção brasileira errar quatro cobranças de pênalti, em sequência, nas quartas de final da Copa América.
A transação estaria efetivada, não fosse a prepotência de Murdoch. Justificada apenas pelo seu desatino megalónomo de onipresença. Pois é, quem diria? Na semana passada, os parlamentares ingleses já estavam com uma moção prontinha para minar com as pretensões de um dos mais temíveis velhacos das indústrias da comunicação mundial. Assim, a News Corp. se viu obrigada a recuar, principalmente após o fechamento do News of the World, publicação inglesa que chegou a liderar o ranking dos tablóides mais vendidos no mundo.
O escândalo dos grampos ilegais criou um cenário digno de filme de espionagem. No qual centenas de pessoas públicas têm suas intimidades controladas por uma espécie de “cafetão” da chamada “imprensa people”. A postura do parlamento britânico - que poderia ter sido adotada antes, caso houvesse vontade política para isso - só se justifica pelo receio dos congressistas em entrar na mira do orelhudo internacional. Por outro lado, o fim do tabloide e a impossibilidade em concretizar a compra do restante das ações referentes à BSkyB não acabam com o poder de Murdoch. Através da News International, sobretudo com a penetração de The Sun e The Times, o magnata continua exercendo forte influência nas decisões políticas do país.
Seria engraçado, não fosse revoltante, a forma como os donos do poder se portam perante a opinião pública. Enquanto Murdoch se acha no direito de usar de qualquer subterfúgio possível para ter acesso à vida privada de políticos, celebridades e nobres britânicos, o “rei do futebol brasileiro”, - não estou me referindo a Pelé, este pode ser conside
rado, no máximo, príncipe, se comparado ao verdadeiro dono da bola no Brasil – mister Ricardo Teixeira, sente-se no direito de falar o que bem entender. Afinal de contas já foi cotado até para suceder Joseph Blatter no comando da FIFA e, na época, o “príncipe Pelé” fez questão de manifestar apoio inequívoco ao "rei".Em recente entrevista concedida à revista piauí, Teixeira fez pouco caso das investigações judiciais que o acusam de estar envolvido em crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e sonegação fiscal. O processo esteve em evidência há mais de dez anos, época em que a CPI da CBF/Nike foi arquivada pelo Ministério Público. Isso só fez aumentar a sensação de poder absoluto do genro de João Havelange, ex-presidente da extinta Confederação Brasileira de Desportos (CBD), de 1956 a 1974, hoje Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Em sua declaração pública, o verdadeiro “rei do futebol brasileiro”, disse estar “cagando” para as denúncias que circulam na mídia, pois, segundo relata, só ficará preocupado “quando as acusações saírem no Jornal Nacional”. A fala arrogante e o perfil autoritário são marcas do desvario magalómano que, além de Murdoch, também o atinge. Mania de grandeza assegurada pela atuação em conluio com o maior conglomerado de mídia da América Latina. Rede Globo e Ricardo Teixeira têm uma relação antiga, onde o silêncio da família Marinho sobre os processos e negociações do presidente da CBF assegura a hegemonia dos direitos de transmissão dos jogos das "celebridades futebolísticas”.Não quero mexer com as paixões do brasileiro. Não sou louco nem nada. Mas é preciso cavoucar um pouco mais o buraco no qual a Seleção Brasileira de Futebol caiu. Não é nada disso. Não estou me referindo àquele pequeno desnível na marca do pênalti, o
qual, segundo os jogadores, prejudicou os arremates finais na partida contra o Paraguai, válida pelas quartas de final da Copa América.O buraco que me refiro é mais em baixo. Eu sei, está cada vez mais difícil de vestir com orgulho a camisa da Seleção e isso nada tem a ver com resultados. O problema é a identificação com o simbólico. Essa aproximação é fruto de uma mistura pretensiosa, capaz de, pouco a pouco, alienar o mais fiel torcedor e levá-lo a descrença total no futebol. Basta somar a influência de Teixeira nos bastidores da cobertura futebolística com a hiper-valorização da publicidade em torno dos "notáveis boleiros" e, para finalizar, ter de assistir aos jogos por intermédio da linguagem pedante da Rede Globo.
Só podia dá “m....”. Opa! Desculpa. Prefiro não utilizar palavras de baixo calão neste post. Não quero correr o risco de ser mal interpretado. Voltando ao que interessa, preciso ser franco, é “f...” ver Mano Menezes de garoto-propaganda da AmBev; Ganso, Neymar e Robinho dançando com a camisa canarinho na propaganda da Seara, ao som de “Single Ladies”, e por aí vai. Neymar é o artilheiro e protagonista da maioria dos comerciais. Nike, Nextel, Guaraná Antártica e até talco desodorante para os pés fazem parte da promissora carreira do garoto de 19 anos, símbolo do "futebol-arte". Qual o resultado de toda essa exposição midiática? Sair em destaque na revista Veja, com o título “Reymar” estampado bem na capa.Podres poderes: é hora da mobilização popular
Estão acabando com a alegria do povo. Como já disse aqui, em outro post, hoje tem dia e hora para assistir futebol. Acontece que o acordo em relação a datas e horários ocorre longe da opinião dos torcedores. Atende única e exclusivamente aos interesses dos canais privados. Fora isso, nos noticiários, informações verdadeiramente importantes, como o caso dos grampos na
Inglaterra, são veiculadas sem a devida contextualização dos fatos e, propositadamente, não se debate a regulamentação da mídia, assunto de extrema relevância para se concretizar a democratização da comunicação no Brasil.Resultado: Teixeira dá um "bago" na democracia, mandando-a às favas; Murdoch escuta a caixa registradora tilintar, lucrando em ritmo de goleada, e os jogadores da Seleção reclamam do gramado, chutando a bola nas arquibancadas. Deve ter sido em sinal de protesto. Só pode. Aonde já se viu “jogatores” (jogadores + atores) terem de se apresentar em palco tão inapropriado? Resta, a nós, os “torcepectadores” (torcedores + espectadores) ressuscitarmos o espírito aguerrido das expressões populares, constantemente presente nas atividades esportivas. Quiçá possamos reclamar deste verdadeiro circo, ao qual somos submetidos diariamente, e, nesse sentido, tenhamos força suficiente para promover a subversão do quadro atual.








