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sábado, 21 de agosto de 2010

O contexto histórico da atuação sindical e a convergência midiática

A máxima proclamada por Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto do Partido Comunista, em 1948, na qual convocavam os trabalhadores de todo o mundo para que aproximassem suas lutas e enfrentassem os donos do capital, acabou sendo ironicamente apropriada pelos barões da mídia. Ao invés do proletariado de todo mundo unir-se, quem se fortaleceu e, de certa forma, unificou-se incentivando o avanço das novas tecnologias, foram as grandes empresas ligadas ao ramo das comunicações.

Neste cenário, cada vez mais absorto em fetichismos tecnológicos e disputas de audiência, volta-se o olhar para a atuação sindical e o papel estratégico que estas organizações têm ao desafiar o poder estabelecido, agindo, principalmente, no âmbito comunicacional. Tarefa nada fácil, ainda mais se levando em conta que a existência do sindicalismo no Brasil é fortemente marcada pelo controle estatal.

Em 1930, o então presidente Getúlio Vargas toma uma série de medidas para atrelar as organizações sindicais ao Estado. Paralelo a criação do Ministério do Trabalho, da Indústria e do Comércio passa a vigorar o Decreto-Lei n° 19.770, com o objetivo de regular a sindicalização das classes patronais e operárias, controlando a criação e a atuação destas entidades. Ainda neste Governo cria-se a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) a qual, ao aglutinar toda legislação trabalhista, passa a regulamentar as relações que se estabelecem entre patrões e empregados, restringindo a livre associação sindical. Este entulho autoritário do Estado Novo só é rechaçado com a Constituição Federal de 1988, que determina em seu artigo 37, inciso VI ser “garantido ao servidor público civil o direito à livre associação sindical”.

Antes disso, durante a ditadura de 1964, as organizações sindicais protagonizaram um importante movimento de contestação ao Governo Militar. As entidades classistas foram responsáveis por unir as principais lideranças políticas do país que eram contrárias ao regime e passaram a exigir a retomada da democracia e a participação popular nas decisões governamentais. Não obstante, esta postura combativa foi perdendo força ao longo dos anos, atingido seu ápice com a chegada de Luís Inácio Lula da Silva ao poder. A perplexidade e insatisfação de parte da sociedade brasileira frente à política neoliberal adotada pelo atual Governo não foi suficiente para motivar a principal central sindical do país a pressionar o ex-líder sindical por uma mudança de atitude. Situação que acaba se refletindo na falta de identificação de grande parte da classe trabalhadora com o movimento sindical nos dias de hoje.

Diferente das diversas publicações classistas que circularam no Brasil e foram responsáveis pela propaganda operária até o golpe militar, as atuais experiências de mídia, oriundas das organizações sindicais, mesmo estando inseridas dentro do espectro da convergência midiática, continuam deixando a desejar tanto no formato quanto no conteúdo de suas produções. A imprensa sindical que chegou a ter oito jornais diários circulando no Brasil, na década de 1940, conquistou o respeito da classe trabalhadora por que buscava aproximar-se da sua realidade. No entanto, ao seguir cegamente a linha ditada pelo Estado Soviético, a imprensa daquela época sucumbiu, pois, com o passar do tempo, nada mais dizia sobre a realidade local.

Muito mais atentos aos avanços das tecnologias de comunicação, os principais grupos econômicos multinacionais, atuando por meio dos grandes conglomerados de mídia, se beneficiaram da falta de interferência do Estado na regulação da atividade econômica e da pouca pressão exercida pelas organizações sindicais visando o controle dos grupos privados. Assim, as empresas voltadas ao setor de comunicação acabaram diversificando a oferta de produtos sem maiores restrições. A convergência permite, por exemplo, que em um mesmo pacote possam ser incluídos serviços de telefonia fixa, móvel, internet e TV a cabo. Ao ter acesso às novas tecnologias e utilizar os serviços disponíveis o trabalhador sente-se contemplado e inserido neste novo bios midiático, embora não diversifique o consumo de conteúdos.

É neste espaço que devem atuar as organizações sindicais, pois, com a convergência midiática, a classe trabalhadora passa a configurar-se também como produtora de conteúdo, deixando de ser mera consumidora de informação. Os grandes conglomerados de comunicação cada vez mais oferecem recursos midiáticos criando a ilusão de que os trabalhadores estão inseridos no universo produtivo, porque permitem que eles disponibilizem conteúdos na internet, mesmo que sejam todos muito semelhantes e, em geral, acríticos. Às organizações sindicais cabe o papel de aproximar-se dos trabalhadores, fornecendo em seus canais de comunicação espaços de verdadeira atuação política, os quais devem permitir a crítica ao Governo e, assim, renovar também o próprio movimento sindical.

Texto originalmente publicado na Revista do Instituto Humanitas da Unisinos 338, ano X, de 9 de agosto de 2010.
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domingo, 15 de agosto de 2010

Da estética do medo ao medo da estética

É cada vez mais comum a espetacularização do processo eleitoral por parte das grandes emissoras de TV no Brasil. Sob os holofotes da mídia, a arte de fazer política manifesta-se ideologicamente e perdura, de modo a adaptar-se historicamente ao contexto sócio-cultural de cada região.

Aliados a esse movimento, os responsáveis por planejar e operacionalizar as ações de marketing político elaboram estratégias que diferenciem seu candidato dos demais, dando-lhes, muitas vezes, uma credibilidade de ordem meramente performática. O estrategista de marketing substitui as instâncias partidárias.

Diante disso, a imagem do político contemporâneo tende a sobressair menos pelas propostas e pelo programa de governo e mais por sua relação com elementos midiáticos e demandas detectadas por pesquisas de mercado. Sua capacidade de apresentar uma proposta alinhada com o ideal de sociedade de uma determinada fração social é preterida, gerando a pasteurização de candidatos e partidos políticos. O público, por sua vez, não é visto como mero espectador, mas sim, como um eleitor participante, ou seja, alguém acostumado ao fascínio das produções audiovisuais, porém incapaz de assimilar seus códigos de maneira crítica, convertendo em voto a baixa interação com o candidato midiatizado.

A tática do PSDB

Ao fazer um breve exercício de reflexão das práticas eleitorais, especialmente nas últimas três décadas, percebe-se a presença da arte cênica em maior ou menor escala. Esta atuação artística não se resume à interpretação do próprio candidato, mas, sobretudo, à possibilidade de poder contracenar com atores de renome ou personalidades em evidência nos principais canais de televisão. Na medida em que artistas conhecidos se filiam a determinados projetos políticos, em geral com a mesma motivação com que fecham contrato para anunciar outros produtos, conforma-se uma manobra eleitoral, nociva à democracia.

Um caso que acabou tornando-se emblemático nesse tipo de relação ocorreu nas eleições presidenciais de 2002. Na época, a atriz Regina Duarte declarou que sentia medo do que poderia acontecer caso o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva saísse vitorioso no pleito presidencial. A fala da atriz foi transmitida durante o horário eleitoral gratuito, em defesa da candidatura do ex-governador de São Paulo José Serra, derrotado naquela ocasião e, hoje, novamente candidato à Presidência da República, sempre pelo PSDB.

É importante dizer que, mesmo com a derrota tucana nas urnas, o medo de Regina Duarte não chegou a se confirmar. O governo do presidente Lula manteve a política econômica de seu predecessor, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), promovendo reformas de inspiração neoliberal e nomeando economistas filiados a esta corrente de pensamento para assumirem cargos estratégicos em sua gestão. De qualquer forma, a tática utilizada pelo PSDB, vinculando a imagem de Serra a uma atriz global, historicamente conhecida como namoradinha do Brasil, não foi totalmente fracassada.

Oposição artístico-política

O medo expressado pela atriz representava a desconfiança do mercado financeiro com o ex-líder sindical. Isso repercutiu dentro da própria candidatura Lula, pois o candidato petista apressou-se em deixar claro que priorizaria o crescimento econômico, mantendo a inflação baixa, os juros altos, a oscilação cambial brusca e o aumento da dívida pública. Foi sob estes termos que Luiz Inácio Lula da Silva assinou a Carta Aberta ao Povo Brasileiro, em 2002. O alerta deu certo e guinadas fora da cartilha econômica neoliberal foram descartadas.

O fato é que, enfaticamente no Brasil, a teledramaturgia, o cinema e a música são capazes de fabricar legítimos representantes dos anseios populares, os quais são aceitos pelo público com muito mais naturalidade do que os construtos políticos poderiam fazer. Essa dinâmica é responsável por um novo fenômeno, no qual músicos, apresentadores e artistas têm ascendido a cargos públicos eleitorais com enorme facilidade, rebaixando o discurso político e desqualificando o processo democrático.

Para piorar esse quadro, percebe-se que a militância social, quando transformada em produto midiático, costuma traduzir-se em oportunismo. No ano de 2007, por exemplo, surgiu no Brasil o Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros. Conhecido popularmente como Cansei,foi organizado porartistas e empresários, visando à desestabilização do governo federal. Usando como pretexto um acidente aéreo, que vitimou dezenas de pessoas, forjou-se uma espécie de oposição artístico-política, amparada na imagem de seus protagonistas. Novamente a namoradinha entrou em cena, para, lado a lado com a cantora Ivete Sangalo e a apresentadora de TV Hebe Camargo, transformar-se em ícone de tal malogro.

Atrair, e não assustar

Existe, portanto, uma clara intenção de caráter político-partidário em produzir efeitos de reconhecimento e pertença no público por parte dos agentes que estabelecem campanhas, direta ou indiretamente eleitorais, em que a presença das celebridades televisivas é o principal foco daquilo que constitui a disputa política, embora não necessariamente se apresente como tal. A empatia dos eleitores com seus ídolos permite a identificação – ideológica, mesmo que mascarada – com uma corrente de pensamento, tencionando e influenciando as decisões do eleitorado.

Não obstante, este ano, as estratégias de marquetização do PSDB apontam para uma mudança de paradigma. Ao exibir como mestre de cerimônias da pré-candidatura de José Serra a modelo e apresentadora televisiva Ana Hickman, o partido parece ter aprendido que assustar pode ser menos vantajoso do que atrair o eleitor. Sendo assim, tudo indica que o discurso receoso de Regina Duarte, característico nas campanhas anteriores, tornou-se obliterado. Do mesmo modo, apostar na simpatia do ex-governador de São Paulo seria, tampouco, prudente, já que neste quesito o presidente Lula é imbatível e sua popularidade está canalizada para a campanha de Dilma Rousseff, ainda que ela e Serra compartilhem a dificuldade de se aproximarem das formas de ser e estar do brasileiro médio.

Texto originalmente publicado no site Observatório da Imprensa, em 18/5/2010.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Então quer dizer que grilagem pode, mas ocupação não?

É impressionante a forma maniqueísta com a qual a grande mídia trata a questão fundiária no Brasil. De um lado, estão os "fazendeiros bonzinhos" e os seus milhares de hectares improdutíveis e incultiváveis. Do outro, os "camponeses malvados", que são responsáveis pela produção de mais de 70% dos alimentos consumidos internamente no país e cerca de 75% da mão de obra no campo.

Os primeiros podem invadir terras públicas e tomá-las de assalto para produzir qualquer tipo de monocultura, pois nunca haverá uma manchete nos grandes jornais, ou, uma chamada na TV, dizendo: "Terras da União são utilizadas ilegalmente pela Sucocítrico Cutrale". No entanto, é comum acompanharmos notícias depreciando os movimentos sociais toda vez que ocupam áreas como essas. A criminalização desses movimentos é antiga, mas as estratégias utilizadas pela mídia em sua intensa campanha para desmoralizar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ganha, a cada dia, contornos semelhantes aos do regime militar.


Dois pesos, duas medidas

A disputa do "bem" contra o "mal" é resultado de uma profunda crise social e política. O agronegócio, tido pelos comentaristas "engraçadinhos", da mídia latifundiária, como o salvador da economia brasileira, emprega e produz menos do que a agricultura familiar. Ano passado, o Ministério do Desenvolvimento Agrário divulgou que, a segurança alimentar no Brasil, é garantida pelas mãos calejadas dos trabalhadores rurais e não por um modelo que atenta contra a vida, através do uso indiscriminado de agrotóxicos.

Ainda em 2009, o site do MST cobrava esclarecimento por parte das empresas de comunicação sobre os três deputados do PSDB e um do PTB, que tiveram suas campanhas eleitorais patrocinadas pela Cutrale e foram favoráveis a instauração de uma CPI para investigar os repasses da União ao movimento. No total, 55 candidatos receberam dinheiro da multinacional para suas respectivas campanhas, deixando orgulhosa a bancada ruralista. A Cutrale tomou para si uma área estatal que corresponde a 2,7 mil hectares e, segundo o portal Fazendo Media, a empresa é investigada pelo Ministério Público de São Paulo por formação de cartel. Como se não bastasse, em várias oportunidades ela também foi autuada por causar danos ao meio ambiente, uma vez que despeja esgoto sem tratamento nos rios.

Infelizmente a discussão sobre a Reforma Agrária não passa pelos índices de produtividade dos assentamentos, nem faz referência ao modelo agrícola que melhor contribuí para o desenvolvimento e a sustentabilidade do país. Sendo assim, falar em justiça social hoje é muito pouco, tamanha a urgência desse debate. Exemplos de impunidade também não faltaram em 2009. O ano ficou marcado pelo covarde assassinato do agricultor sem-terra, Elton Brum, vitimado com um tiro nas costas durante a reintegração de posse da Fazenda Southall em São Gabriel, um dos maiores latifúndios do Rio Grande do Sul.

PNDH e os ruralistas

Ao que tudo indica o novo Plano Nacional de Desenvolvimento Humano pretende mexer nesse quadro de violência. Consta no texto que, "as liminares de reintegração de posse só tenham poder após a realização de audiência pública para analisar o caso e a função social da propriedade reivindicada". Essa atitude irrita os ruralistas já que retira o poder do judiciário para promover a imediata e, muitas vezes, violenta, reintegração de posse no local. Pelo novo plano, será preciso comprovar a função social da propriedade ocupada para que o juiz conceda a liminar de reintegração. Grifo essa expressão por dois motivos:

1) Acredito que esse também deva ser o critério para se rever as concessões das empresas de comunicação no Brasil. Atualmente elas são responsáveis pela formação de oligopólios tanto a nível regional quanto nacional, situação que acaba prejudicando o avanço da democracia em nosso país.

2) Por entender que só é possível combater as falhas do sistema judiciário se forem democratizados os espaços de discussão. As audiências públicas podem cumprir essa importante tarefa de devolver a voz a quem é constantemente calado por não ter espaço nos meios de comunicação convencionais.

Disputa política e oportunismo midiático

Com o aumento da repressão, tendo em vista a prisão de nove integrantes do MST após a ocupação da Cutrale, percebe-se que o movimento está servindo como alvo para uma disputa política e ideológica. O PT, de Lula, de Dilma e do PAC, não está afim de se indispor com as oligarquias rurais. Assim, ávido por acontecimentos políticos que desmintam as prioridades nacionais, o oligopólio da mídia defende o direito à propriedade. A Constituição de 1988 é enfática em afirmar a importância de se cumprir a função social da terra, devendo, esta, ser desapropriada caso isso não ocorra.

Embora não surpreenda a forma irresponsável com que os meios de comunicação tratam esse assunto, é de se notar uma investida maior na tentativa de criminalizar os movimentos sociais. Nos jornais de diversas regiões do país os líderes do MST são tratados como bandidos e existe uma clara tentativa em desqualificar líderes comunitários e sindicalistas. Segundo Bruno Oliveira, advogado que representa os sem-terra presos na última terça-feira (26), dois agricultores foram soltos e os outros devem ser libertados até sábado (30) . Na última quarta-feira(27) foi entregue uma carta ao presidente Lula e ao ministro Tarso Genro, na qual os militantes pedem a intervenção imediata do governo para que sejam soltos seus companheiros. Lembrando que eles foram presos de forma arbitrária, em Iaras e Borebi, interior do estado de São Paulo.

A carta diz ainda: "Caros companheiros Presidente Lula e Ministro da Justiça Tarso Genro, não podemos silenciar diante dessa afronta à luta pela reforma agrária. É hora de barrar a criminalização dos movimentos dos trabalhadores. Nossa luta pelas reivindicações e pelo socialismo é uma luta política e não aceitamos que seja tratada como caso de polícia".

Para ler a carta na íntegra é só clicar AQUI

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Somos todos humanos e venceremos o medo

Mal começou o ano de 2010 e as atenções da mídia voltaram-se, quase que exclusivamente, para dois assuntos: o terceiro Plano Nacional de Desenvolvimento Humano (PNDH) e o terremoto no Haiti. Duas pautas que interessam, e muito, a grande mídia. A primeira, pelo "medo" que gera nos grandes grupos de comunicação, com a possibilidade de, enfim, haver uma maior fiscalização das empresas, partindo da sociedade civil organizada. Já a segunda, pelo uso do "medo" com a intenção de impactar a sociedade e render mais pontos no ibope aqueles que souberem explorar "melhor" o "show da vida e da morte".

Não conheço uma só pessoa que possa afirmar nunca ter sentido medo da morte, ou, que nunca sentirá. Sabe-se que este sentimento pode ser convertido em coragem ou torpor, mas, o "medo", que me refiro no primeiro caso, é diferente do segundo; embora ambos sejam usados para o mesmo fim e estejam movidos por uma inescrupulosa guerra de audiências. A Band, por exemplo, chegou ao cúmulo de utilizar o seu jornal para distorcer fatos e inventar o que chamou de "torturadores de esquerda", ou, coisa que o valha. Tudo para encobrir a verdade, se insurgindo contra a abertura dos arquivos da ditadura e defendendo a Lei da Anistia para os torturadores.

Essa mídia conservadora, que não se envergonha de ter apoiado a ditadura militar no Brasil - mesmo considerando a crise de consciência de algumas empresas de comunicação na época da censura e das torturas - está com medo que o Governo Federal faça o que já devia ter feito há muito tempo: cassar as concessões das emissoras de rádio e TV que não estejam cumprindo com o seu papel social, ou, pior ainda, estejam agindo de má fé, mentido descaradamente em defesa dos algozes do socialismo no país.

Os reacionários da mídia liberal, patrocinados por uma nova forma de fazer oposição, a"demotucanocracia", pretendem convencer a sociedade de que estão preocupados com a "censura" aos meios de comunicação. Falam em nome da "liberdade de expressão", mas sabe-se do trabalho árduo que tiveram para construir um verdadeiro monopólio da expressão no país. Como se auto-intitulam liberais convictos e se julgam democratas autênticos, acreditam existir, nos veículos de mídia comerciais, a diversidade de opiniões e o espaço para o contraditório.

Utilizam-se da retórica neoliberal, para defender a plutocracia, e, assim, manifestam todo o seu ódio pelas camadas sociais menos favorecidas. Os militantes de esquerda, chamados maldosamente de "terroristas", deveriam ser lembrados como exemplos do que o "medo" pode fazer para o bem da sociedade. A parte digna e humana do medo; uma coragem que enfrentou a dor em defesa de ideais e, por isso, é odiada, já que não pode ser reificada.

Exclusão, violência e pobreza não estão presentes somente no Haiti, fazem parte do cotidiano da maioria dos trabalhadores brasileiros. Estes, não costumam enfrentar abalos sísmicos, mas também sofrem cotidianamente com abalos morais, físicos, sociais e econômicos. Diante disso, a suposta preocupação das grandes redes de comunicação, com a "tragédia" no Haiti, soa oportunista. Não fosse o número de mortes, esse país certamente não seria lembrado. Ainda tentando se recuperar da crise política de 2004 e marcado eternamente pelo racismo, decorrente da exploração européia e da invasão norte-americana no início do século XX, o Haiti, como a maior parte dos países pobres, acaba servindo para que os países ricos demonstrem um certo altruísmo perante a opinião pública mundial, dignificando seus chefes de Estado.

Será que o PNDH estaria incomodando tanto a mídia fossem outros os tempos e o governo Lula, mesmo com todas as suas contradições, não representasse uma mudança no paradigma da política nacional? Quanto ao Haiti, não poderiam os países ricos envolverem-se numa campanha mundial, para erradicar a miséria e a pobreza do mundo, criando a Frente Mundial pela Solidariedade? É, isso pode parecer utópico, mas faz parte da superação do modelo de sociedade em que estamos habituados a viver.

O Fórum Social Mundial é um caminho. O neoliberalismo dá provas de que os "perdedores" estão se organizando para exigir os seus direitos. Para os "vencedores", um alerta: todas as questões que envolvem de uma forma ou de outra o medo, dizem respeito aos Direitos Humanos. Não tem mais como se esconder atrás de um discurso democrático para promover a miséria, a impunidade e tentar justificar a tortura. Muitos morreram em nome de uma sociedade mais justa e fraterna e, estes, jamais serão esquecidos. Cabe somente, a nós, que suas lutas não sejam em vão.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Sobre a paixão no futebol e o sensacionalismo da RBS

Não planejava escrever nada sobre o acidente que ocorreu com a delegação do Brasil de Pelotas, há exatamente um ano atrás. Como Xavante de nascença e certo de que este sentimento me acompanhará até mesmo depois da morte, caso isso seja possível, estava receoso de cair no tradicional sensacionalismo. Presente em quase todos os textos, vídeos e áudios sobre temas como esse.

No entanto, certo de que preciso fazer um registro do que sinto, acabo por despreocupar-me com possíveis equívocos que possa vir a cometer. Conversando com alguns amigos e acompanhando de perto as reportagens que falam sobre a tragédia que vitimou os jogadores Cláudio Milar e Régis Gôuvea, além do preparador de goleiros Giovani Guimarães, percebo que existem sentimentos diferentes com relação a abordagem da mídia e, também, algo que acho fundamental: o impacto produzido nos torcedores.

No site oficial do Grêmio Esportivo Brasil a mensagem é positiva. A campanha lançada pelo clube é de superação - 15 de janeiro de 2009: o dia que SUPERAMOS - já em algumas abordagens midiáticas, sobretudo nas reportagens televisivas da RBS, o sentimento ainda é de sofrimento. Claro que ainda dói, alguém duvida disso? Pois é, se dói em nós torcedores, imagina a dor da perda para os parentes dessas pessoas. Antes de serem profissionais ou ídolos, as vítimas eram filhos, irmãos, pais e amigos.

Por isso, embora não surpreenda, causa um certo incômodo assistir à reportagens onde são entrevistados o pai de Cláudio Milar, a mãe do ex-zaguerio Régis e a irmã do preparador de goleiros Giovani Guimarães. A forma como é construída a matéria supera a idéia do "espetáculo midiático", beira a irresponsabilidade. Anunciada desde o início do Jornal do Almoço como destaque da edição de hoje, a reportagem da RBS chamava a atenção para o "pai de Cláudio Milar, que rompera o silêncio um ano após o acidente"; "a esposa de Milar, ainda sem conseguir falar sobre o assunto" e, a mãe de Régis, visivelmente emocionada, dizendo: "ainda está muito difícil superar a tragédia e a saudade aumenta a cada dia".

Nós, torcedores do Brasil, preferimos a mensagem passada pela direção Xavante. No entanto, infelizmente, a visão do clube ganhou pouco destaque na emissora da familia Sirotsky. "A torcida mais alegre do estado teve um dia de tristeza...", assim anunciou-se a reportagem. A estratégia utilizada pelo principal grupo de comunicação do Rio Grande do Sul contradiz a mensagem da direção do clube. Inclusive, ao falar com o repórter, um torcedor afirma: "É hora de seguir em frente. O Brasil não é um time que tem uma torcida, é uma torcida que tem um time", o tom é de entusiasmo, de superação.

A tragédia ficou no passado. Sentimos e, com certeza, sempre sentiremos muita saudade dos profissionais que se foram. Mas nada comparado ao sentimento das famílias destes homens. Elas merecem ser respeitadas. Não é justo que o sofrimento dos familiares seja manipulado em busca de audiência. O sentimento que nutrimos por esse clube é impossível de ser explicado em poucos minutos de exposição midiática. É uma vontade de vencer mais do que partidas, uma ânsia em superar as impossibilidades criadas pelo mercado do futebol, responsável direto por condenar os clubes do interior a meros coadjuvantes dos times da capital.

Seria bom se a grande mídia desse valor ao nosso maior título: a SUPERAÇÃO. Não me refiro só a tragédia, mas a todas as dificuldades enfrentadas, constantemente, pela nação rubro-negra e demais times do interior gaúcho. No campo, continuaremos lutando para chegar no lugar que é nosso por direito. Fora dele, exigimos respeito aos que se foram, as suas famílias e à nossa paixão, que não é mercadoria para ser vendida como mais um produto da RBS.

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