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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Carnaval: é a hora e a vez do Zé do Caroço...

Confira, logo abaixo, o vídeo com Mariana Aydar e Leci Brandão. Elas cantam a música Zé do Caroço, símbolo e exemplo a ser seguido pelos/as excluídos/as de todas as partes do Brasil.

Viva Leci Brandão, autora desse verdadeiro hino da resistência popular, amplificado pela comunicação independente; única comunicação capaz de transformar os agentes da informação em potenciais difusores da realidade em que vivem. Não da virtual-realidade, midiatizada cotidianamente pelos "grandes meios de comunicação".

Não existe fato jornalístico. Existem fatos. Cada um enxerga a realidade a partir dos pés onde pisa e, é, por isso, que se torna irremediável a reflexão sobre a resistência popular e a construção subjetiva da organização social. São ferramentas que podem ser utilizadas contra o mito, criado e recriado, do prazer a qualquer custo. Não existe verdade absoluta. Existem, isso sim, verdades mercantilizadas.

Ao escrever essa música, Leci Brandão mostrou a importância do "Zé do Caroço", ou melhor, da comunicação alternativa, das rádios comunitárias, do ato de dividirmos opiniões e construirmos a informação, sem a presença de mediadores.

O "morro do pau da bandeira" é aqui. É em qualquer lugar. O Zé do caroço é qualquer um. É quem estiver disposto a "pôr a boca no mundo e fazer um discurso profundo" para ver o bem da sua cidade, do seu bairro; do lugar onde vive. Só desta forma iremos compartilhar histórias de vida e construir um mundo melhor, mais justo e digno de se viver.

Bom Carnaval!

Letra:

O serviço de auto falante,

no morro do pau da bandeira,

Quem avisa é o zé do caroço,

amanhã vai fazer alvoroço,

alertando a favela inteira

há como eu queria que fosse em mangueira

que existe outro zé do caroco,

pra d'uma veiz pra esse moço,

carnalval não é esse colosso,

minha escola é raiz é madeira,

Mas é o morro do pau da bandeira

de uma vila isabel verdadeira

que o zé do caroço trabalha

que o zé do caroço batalha

e que malha o preço na feira

e na hora que a televisão brasileira

destrai toda gente com sua novela

é que zé põe a boca no mundo,

e que faiz um dicurso profundo

ele quer ver o bem da favela

esta nascendo um novo lider

no morro do pau da bandeira...

esta nascendo um novo lider

no morro do pau da bandeira...

esta nascendo um novo lider

no morro do pau da bandeira...

no morro do pau da bandeira...

Vídeo:

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

E rolam as páginas da vida...

Caminha-se só, em grupo, amparado e, até, paralisado. Sim. O caminho também é feito e efeito da imaginação. Mas não se trata de algo meramente ilusório. Ele é real. Talvez até mais verossímil do que as palavras - ou a falta delas - possam expressar. Se a vida fosse um texto com início, meio e fim, cada um escrevesse a sua história e a junção desses escritos formasse um livro, não haveria preocupação com o conto melhor grafado, possuidor das orações mais complexas, das conjunções mais perfeitas, da ortografia impecável, da lógica contundente. Não se daria tanto valor à coerência e não haveria espaço para a conclusão.

Um texto sem erros - sejam eles ortográficos ou gramaticais -, onde não existam equívocos de qualquer ordem, assemelha-se a uma existência sem a possibilidade de mudança (correção). É um texto chato, nulo, sem vida! É uma existência sem cor, um passar dos dias amargo, uma redação obrigatória e preestabelecida por normas, chamadas de "cultas".

A maioria das pessoas teme mais a solidão do que a morte. Mesmo que esta última seja o ponto final. Parece que a existência só torna-se possível quando, de alguma forma,  estamos completos. Contudo, preencher a si mesmo não se resume a ficar rodeado de pessoas por todos os lados. São palavras em excesso. É um texto prolixo.

A igreja garante que não estamos aqui por acaso. Há explicações, orações, suplícios e mártires, mas não há, - muitas vezes - harmonia nessas idéias. É a explicação da fé. Do invisível. Daquilo que não traz o retorno imediato, não é palpável e não corresponde à lógica deste mundo, o qual, por sua vez, não permite pausas  durante as "orações". É desta forma que estão balizados os sentimentos nos dias de hoje. O retorno possível apenas no aqui e agora. Se não for assim, não é satisfatório, não serve, é descartável.

Nesse contexto, mesmo sem nos darmos por conta, vamos grafando os livros de nossas vidas. Mal percebemos que os verdadeiros poetas não estão com a testa franzida, apontando para essa ou aquela história, julgando qual a melhor escrita. Estão apenas sentados no banco de uma praça qualquer e dialogam sobre escritos complexos à razão, mas fiéis ao espírito e, cada vez mais, honestos à alma.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A manipulação midiática

É motivado por legados como o de Perseu Abramo, que o blog, Exílio Midiático, está procurando desenvolver um espaço capaz de dialogar com a realidade e aprofundar o pensamento crítico e reflexivo dos diversos elementos que compõem a sociedade e a mídia. Para tanto, não se pode ignorar o papel perverso das grandes corporações, transformadas, de forma cruel, em instâncias partidárias, defensoras dos poderes institucionalizados e do capital financeiro.

É somente dialogando com a realidade que torna-se possível encontrar as palavras que constroem o universo humano e democratizam as relações sociais para, assim, combater a mercantilização da informação e possibilitar uma participação efetiva na contrução do saber.

Como dizia o jornalista Perseu Abramo:
"Recriando a realidade à sua maneira e de acordo com seus interesses político-partidário, os órgãos de comunicação aprisionam os seus leitores neste círculo de ferro da realidade irreal, e sobre ele exercem o seu poder"

Portanto, cabe a cada um de nós, construtores e protagonistas de nossa própria história, e, principalmente, responsáveis pela transformação desse modelo atual, exercido nas grandes corporações midiáticas, questionarmos o que está sendo vendido como a única e objetiva revelação do fato noticiado.

É relevante prestar atenção se a voz que fala, as lentes que filmam e as palavras que ocupam as folhas dos jornais estão reproduzindo a única verdade que interessa a sociedade: aquela que se constrói a partir da vivência e da prática política e social.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A águia e a galinha habitam em cada um de nós

A história que reproduzo, logo abaixo, diz respeito a James Aggery, político e educador ganense que, certa feita, contribuiu para mudar a realidade social dos oprimidos de seu país. Em meio à acalorados discursos entre lideranças populares de Gana, Aggery discorreu contra a opressão de seu povo, à época sob domínio colonial da Inglaterra.



No livro, "A águia e a galinha", o teólogo Leonardo Boff vai além da explicação deste fato histórico. Busca confrontar os fundamentos da existência humana e as condições que determiam o que somos, além de evidenciar a potencialidade do que podemos ser, caso estejamos dispostos a desvincilharmo-nos de imposições psicolócgicas, sociais, políticas e econômicas.

Porém, aqui, neste curto espaço, será apenas apresentada a história que James Aggery contou aos seus compatriotas. Sua intenção era levá-los a lutar pela liberdade, que veio em 1949, após intensas lutas do Partido da Convenção do Povo, liderado por Kwame N'Krumah. Gana foi a primeira colônia inglesa a conquistar a independência. Esta história se fez pela liberdade de consciência do povo e pelo trabalho árduo de Aggery em mostrar que isso era possível.

Assim disse o educador aos seus companheiros:

“Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros.

Depois de cinco anos, esse homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista: - Esse pássaro aí não é uma galinha. É uma águia.

- De fato – disse o camponês. É águia. Mas eu a criei como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.

- Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.

- Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia. Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:

– Já que de fato você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe! A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.

O camponês comentou:

– Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha! – Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã. No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurou-lhe:

– Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe! Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.

O camponês sorriu e voltou à carga:

– Eu lhe havia dito, ela virou galinha! – Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.

No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.

O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe: – Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra as suas asas e voe!

A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.

Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergueu-se soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou… voou… até confundir-se com o azul do firmamento…”

E Aggrey terminou conclamando:

- Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar.

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