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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Dia do$ Pai$

O último domingo marcou mais uma data vergonhosa, imposta aos trabalhadores brasileiros pelo calendário consumista da ideologia norte-americana. Segundo a Serasa Experian, houve um acréscimo de 8,8% nas vendas - em relação ao mesmo período do ano passado - durante a semana que antecedeu o dia 14 de agosto, data correspondente à comemoração do Dia do$ Pai$, agendada anualmente para o segundo domingo deste mês. Mas o que mais impressiona é a falta de bom senso da maior parte das pessoas, já em idade adulta, quando se aproximam tais “datas comemorativas”. Infelizmente, mercantilizar o amor, o afeto e o carinho já são práticas naturalizadas, seja em relação a pais, mães, filhos ou cônjuges.

Desde quando é possível valorar sentimentos por meio da troca simbólica de produtos, na maioria dos casos, dispensáveis? A questão é pertinente e precisa ser discutida. Não raras às vezes, famílias com renda insuficiente para suprir necessidades básicas de subsistência se veem submersas na lógica consumista que baliza as relações afetivas. O convencimento se dá de várias maneiras, mas, sem sombra de dúvidas, o jogo sujo das campanhas publicitárias aliado às “reportagens festivas” das megacorporações midiáticas, contribui significativamente para fortalecer as regras nefastas do sistema capitalista.

Chega a ser infame. Você ama? Dê um presente. Não tem dinheiro? Dá um jeito. Faz um empréstimo. Compra nem que seja uma “lembrancinha”, mas não deixa de gastar “algum”. O importante é consumir. Não dá para comprar “aquele presente”? Então, que seja uma meia, uma gravata, um lenço, uma carteira. Qualquer coisa. O mercado precisa lucrar. Empresários, dos mais variados ramos, estão afoitos para faturar e, ao trabalhador, cabe o papel de protagonista deste processo degradante.

Origem ideológica

Levando em conta a suposta “origem” do chamado Dia do$ Pai$ é claramente perceptível o tamanho da babaquice. No âmbito escolar chega a ser traumatizante. Quem nunca foi obrigado a participar de uma homenagem do Dia do$ Pai$ quando era criança? Lembro de colegas que não conheciam seus genitores, muitos nunca haviam sequer trocado uma só palavra com eles. Outros mal sabiam se estavam vivos, mas, mesmo assim, eram constrangidos pelos professores sendo obrigados a participar das “comemorações”. A solução encontrada para suprir essa ausência era fazer uma “dedicatória” ao padastro, avô, tio ou outro parente próximo qualquer. A lenga lenga contada nas salas de aula é referendada em portais da internet dedicados ao fornecimento de cartões virtuais. É só procurar. Não faltam explicações sobre o porquê de se induzir as pessoas a gastarem dinheiro em datas como essa.

O discurso dominante, reproduzido em escolas e meios de comunicação, vai contar a história de um tal de Elmesu, que viveu há mais de 4 mil anos na Babilônia e esculpiu uma estátua dedicada ao seu progenitor. Recordo-me dessa história sendo exaustivamente narrada nos tempos de colégio. A maior parte dos estudantes ficava pensando o que isso tinha a ver com a sua realidade. Diga-se de passagem, eram crianças afoitas em agradar seus pais. Queriam fazê-los orgulhosos. Contudo, como já disse, além dessas, havia as que não os conheciam ou, simplesmente, os odiavam. Não cabe aqui destacar o porquê da repulsa de cada um dos meninos e meninas. Os motivos eram muitos e, garanto, justificáveis. Ficavam se perguntando por que deveriam “esculpir” um desenho em homenagem a um ser que consideravam desprezível.

Imposição cultural

A tolice que representa a comemoração do Dia do$ Pai$, e qualquer outra similar, só toma ares de seriedade quando se explicita a imposição dos valores dominantes através da expropriação do dinheiro suado da classe trabalhadora. Motivo pelo qual esta “data festiva” foi sumariamente importada dos Estados Unidos para ser incorporada ao calendário tupiniquim. Reza a lenda que, no início do século XX, a filha de um ex-soldado norte-americano, que lutou na Guerra da Secessão - conhecida também por Guerra Civil (entre 1861 e 1865), quis homenageá-lo, pois teria, este homem, criado a ela e seus cinco irmãos sozinho, após ficar viúvo. Façanha realizada por milhares de pais, mães, irmãos e tantos outros que nem laços familiares possuem para com crianças de todo o mundo.

No entanto, o “homenageado” não era apenas "um bom pai". Era um veterano de guerra. William Jackson Smart, pai de Sonora Smart Dodd e outras cinco crianças, lutou ao lado das forças do Norte durante a Guerra Civil. Após o combate, alistou-se ao Grande Exército da República, organização destinada a acolher soldados dispensados da chamada União. As tropas deste grupo, formadas por 23 estados, eram defensoras do rápido desenvolvimento industrial, cuja mão de obra e as condições para o crescimento econômico, alicerçadas no mercado, dependiam exclusivamente do trabalho assalariado. Rechaçavam, portanto, os, não menos oportunistas, latifundiários do Sul, raivosos defensores do escravagismo. Ao contrapor a aristocracia agrária evidenciavam a necessidade do estabelecimento de barreiras protecionistas e incentivos fiscais, visando impulsionar o mercado interno. Em síntese, queriam acabar com a escravidão direta e, indiretamente, começavam a “esculpir” outro tipo de escravidão não muito longe dali, a simbólica.

Na década de 1950, como bons servos da cultura ianque, o publicitário Sylvio Bhering e o empresário Roberto Marinho, então presidente das Organizações Globo, resolveram aquecer as vendas do comércio incentivando a incorporação do Dia do$ Pai$ ao calendário de “festividades nacionais”. Na época, o jornal O Globo propunha que a adoção desta data permitiria reunir a família em torno do “chefe da casa”, ou ainda, do "líder da prole".

Hoje, enquanto muitos se acotovelam nas lojas, esbarram uns nos outros pelas ruas e trocam olhares inverossímeis ao “presentearem” seus pais, recordo-me com saudades e muito carinho do meu velho. Das muitas coisas que aprendi com ele, uma é de conhecimento de todos, mas nem sempre costuma ser lembrada. Por mais que se tente, jamais será possível mensurar ou valorar o amor.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Quem decide as políticas de comunicação no Brasil?

Durante os oito anos do governo Lula as políticas de comunicação foram, em grande parte, negligenciadas. Seja pela falta de coragem política - ao entregar a pasta das Comunicações para aliados do maior conglomerado de mídia do país, a Rede Globo - ou, ainda, por deixar para depois a discussão sobre o marco regulatório, sabendo que a lei em vigor tem origem no período prévio à instauração da ditadura militar. O fato é que, desde o princípio, o governo selou um pacto nefasto para não se interpor no caminho da iniciativa privada.

Miro Teixeira (PDT), Eunício Oliveira (PMDB), Hélio Costa (PMDB) e Arthur Filardi Leite estão, todos, de uma forma ou de outra, vinculados à emissora da família Marinho e às forças políticas responsáveis pelo golpe de 1964. São agentes que atuam nos âmbitos político e econômico, promovendo, de um lado, a marketização de projetos pessoais, e, de outro, a manutenção do status quo. Nos anos 60, Teixeira trabalhou como repórter do jornal O Dia, cujo proprietário, o udenista Chagas Freitas, era muito próximo de Roberto Marinho. Já Oliveira é um dos “notáveis” membros da bancada ruralista e, curiosamente, a política de comercialização da Rede Globo destina uma considerável parcela do seu bolo publicitário ao agronegócio.

Como se não bastasse, os dois últimos ministros de Lula sentiam-se acima da lei. Ambos se revezaram na direção da rádio Sucesso FM, em Barbacena, Minas Gerais, prática proibida pela legislação em vigor. É bom lembrar, também, que Costa foi correspondente do Voice of America, em 1968, período de forte censura e repressão no Brasil. Além disso, o ex-ministro atuou como repórter da Globo, sendo, inclusive, chefe de reportagem em Nova York e correspondente em Washington, Londres e Paris. A chegada de Paulo Bernardo ao Ministério das Comunicações parecia sugerir mudanças significativas nesse cenário. Na prática, infelizmente, isso não ocorreu. Hoje, a principal discussão sobre as políticas de comunicação está focada no Plano Nacional de Banda Larga (PNBL). Com o programa completamente desconfigurado de sua versão original, percebe-se, novamente, o incentivo do governo à iniciativa privada, desta vez representada na figura das empresas de telecomunicações.

A adesão ao PNBL por parte das operadoras Oi - na qual a Portugal Telecom possui 22,4% de participação - e Telefônica, que lidera o ranking de reclamações do Procon, sobretudo em relação à banda larga, evidencia o modus operandi do governo de turno. Procura-se beneficiar os agentes financeiros mesmo em detrimento da qualidade do serviço prestado. Para se ter uma idéia, em 2009, o chamado “speedy” sofreu tantos protestos que, a empresa espanhola, foi obrigada a deixar de prover o acesso à internet, após advertência da Anatel. O valor estipulado para a mensalidade do PNBL, fixado em R$ 35,00 por uma velocidade de 1 Mbps, faz do “cidadão” mero consumidor. Nesse sentido, a “inclusão” - tão propalada pelo governo - até pode entrar em curso, mas, a emancipação digital, está cada vez mais longe de se concretizar.

Originalmente publicado no jornal ATENTO (agosto de 2011) da RádioCom 104.5 FM de Pelotas.

Sobre revoluções e democracias

Não faz tanto tempo assim. Certamente o leitor lembrará que, em 1968, milhares de estudantes e trabalhadores tomaram as ruas da França protagonizando um dos movimentos políticos de maior repercussão na história recente. Estava em evidência a luta pelos direitos civis. A famosa greve geral, do dia 13 de maio daquele ano, levou mais de um milhão de pessoas a organizarem-se, na base dos sindicatos e nos centros acadêmicos das universidades, para exigir mudanças radicais nas políticas conservadoras adotadas, à época, pelo general Charles de Gaulle. Hoje, as revoltas no mundo árabe e a crise econômica na Europa apontam na direção de uma mudança significativa, pelo menos a nível operacional, na forma de organizar a luta política.

Esse processo é acompanhado de perto pelos meios de comunicação, que têm papel fundamental na formatação da imagem dos personagens envolvidos no conflito e no próprio entendimento destes acontecimentos históricos por parte do público. A cobertura da chamada “grande mídia” não apenas molda o caráter das agitações populares (proliferando os chamados “eventos midiáticos”), como, também, dá-lhes novo relevo. Na década de 1960, a contracultura, representada no âmbito midiático pelo lema “sexo, drogas e rock’n roll”, repercutiu fortemente no Brasil e inspirou, por exemplo, a chamada Tropicália. O grupo de artistas que compunha esse movimento rapidamente foi absorvido pela indústria cultural e suas reivindicações – sintetizadas no princípio da igualdade entre os sexos – ficaram restritas à confrontação artístico-cultural.

Relativização do acontecimento

Embora a origem das exigências populares, na França, tenha sido determinada por questões de interesse coletivo – inclusive, motivando discussões sobre discriminação racial nos Estados Unidos e, paralelo a isso, o surgimento do movimento hippie – é importante destacar que os meios de comunicação, naquele dado momento, procuraram evidenciar certos aspectos em detrimento de outros, seguindo sua regra de ocultação e acentuação. É evidente a relevância das manifestações artísticas e a reflexão que, por vezes, permitem evocar. São experiências fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna. No entanto, a ação política não pode ser suplantada e, tal feito ocorre, repetidamente, na história da publicização dos fatos. Com a atual cobertura dos conflitos internacionais é possível evidenciar, mais uma vez, esse processo. Desloca-se o núcleo de interesse das matérias para o âmbito tecnológico, deixando em segundo plano a importância da ação direta, ou seja, o embate político.

Os neo-revolucionários, formatados pela mídia hegemônica, são descritos como jovens de classe média, bem-educados e com amplo domínio de sites de relacionamento e disseminação de conteúdos, como Twitter e Facebook. Aliás, foi através destes mecanismos que, recentemente, púberes espanhóis, organizados por meio do movimento “Democracia Real Já”, conclamaram seus pares a amplificarem a luta contra as medidas tomadas pelo governo do socialista José Luis Rodríguez Zapatero. Embora, na Espanha (para não dizer globalmente), o neoliberalismo dê mostras de sua falência, com os cortes realizados na área social atingindo desde os trabalhadores mais jovens até os aposentados, os meios de comunicação preferem relativizar o acontecimento.

Defesa do livre mercado

Constantemente, os principais noticiários da mídia eletrônica – também brasileira – destacam o papel quase imprescindível desempenhado pelas redes sociais na organização da luta promovida pelos insurretos. Nada se fala da efetiva motivação de tais movimentos, o progressivo abandono da política do welfare State e a consequente adesão catastrófica ao modelo do Estado mínimo, própria do neoliberalismo. Para tentar contornar o déficit orçamentário, privilegiam-se banqueiros e cortam-se os benefícios da maior parte da população, mas o foco central da midiatização dos fatos recai sobre o perfil dos ativistas cibernéticos e suas ferramentas de luta.

No Egito, por ocasião dos protestos contra o governo de Muhammad Hosni Said Mubarak, o acesso móvel ao Twitter foi bloqueado. A medida foi adotada logo após o governo tomar conhecimento de que os protestos estavam sendo transmitidos para todo o mundo via internet. Essa ação serve como um bom álibi para se defender a liberdade do uso tecnológico e, progressivamente, chegar à defesa do livre mercado, pois, para a mídia dominante, quem quiser se sublevar, no atual contexto das mídias digitais, precisa fazer uso de tais instrumentos. Contudo, a legítima condenação da censura não pode ser confundida com defesa de mercado desregulamentado, sem proteção social.

Barricadas virtuais

Não se trata de desconsiderar as potencialidades da internet, especialmente porque se reconhece sua importância, com destaque para quando o uso das redes é direcionado para contribuir na organização dos movimentos sociais. Acontece que este determinismo tecnológico, resultante do fetichismo digital contemporâneo, acaba colaborando para minar antigas formas de organização popular, responsáveis por importantes mudanças no comportamento da sociedade mundial, a exemplo do que ocorreu em 1968.

A glorificação do uso das redes corrobora para a construção de um novo perfil revolucionário, o qual, antes de tudo, precisa estar apto a consumir tecnologia. É como se não fosse mais possível conformar a luta política pelos meios convencionais. Assembleias, atividades de formação, panfletagens, colagens e seus congêneres são, pouco a pouco, convertidos em práticas antiquadas. Com isso, promove-se o enfraquecimento do esforço da militância, amputa-se o verdadeiro sentido das manifestações populares e incentiva-se a construção de meras barricadas virtuais. Para a identificação do que está por trás disso tudo, basta considerar-se a eficácia deste modelo para o custeio da democracia liberal e o apoio do governo norte-americano para a sua devida concretização.

Originalmente publicado em: Observatório da Imprensa 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Série Pesadelo na Saúde: assustadoramente em defesa da privatização

Foi lançado mais um produto midiático da RBS. Trata-se da Série, sensacionalista, “Pesadelo na saúde”. A família Sirotsky não costuma dar ponto sem nó, ainda mais quando o assunto é faturar. Parecem preocupados com o bem estar da família gaúcha, mas, no fundo, o principal objetivo desta “nobre” afiliada da Rede Globo é atrair o investimento dos famigerados planos de saúde para o seu bolo publicitário. Assim, contribui, também, para aumentar a rejeição ao SUS (Sistema Único de Saúde). Falam como se todo o serviço estivesse comprometido e, nessa direção, a única saída para acordar do letargo seria a privatização do setor.

Sistema privado: serviço pago é serviço feito

Apenas para ilustrar esta falácia, gostaria de expor uma experiência não muito distante. Há alguns anos, quando era dependente do titular de um plano de saúde em minha cidade, Pelotas, quase fui operado uma segunda vez para tratar de um suposto quadro de apendicite. De acordo com o médico a inflamação intestinal já estaria em grau avançado. Não se prestaram nem para olhar a cicatriz da antiga cirurgia. Com dez anos de idade ganhei sete pontos na parte inferior do abdômen. A marca está bem evidente, basta mirar no local onde deve ser feita incisão cirúrgica. De pronto pedi que parassem com o procedimento. Não, calma aí! Já retirei o apêndice – falei ao médico, abortando a operação. O episódio ocorreu sob a égide do sistema privado de saúde e não em um pronto-atendimento do SUS.

Precisamos acordar

Mas, retornando ao “pesadelo” da RBS, nota-se uma preocupação em agradar antigos parceiros comerciais. Entre os anos de 2008 e 2009, para citar um exemplo, o Grupo de comunicação da família Sirotsky fechou parceria com a Unimed, cujo contrato estipulava “participação ativa de todo o Sistema Unimed-RS nos veículos da RBS (Rádio, TV, Jornal e Internet)”. Isso incluiu, é claro, a produção de cadernos encartados no jornal Zero Hora. Ao todo foram publicadas oito edições de o “Espaço Vida” junto ao periódico de maior circulação no estado do Rio Grande do Sul.

Na última segunda-feira, dia 25 de julho, a chamada para a matéria principal do programa RBS Notícias - diga-se de passagem, muito bem lida pela apresentadora Daniela Ungaretti – causa repulsa em quem ainda não se rendeu à propaganda enfadonha de que, para se ter saúde, é preciso pagar, e caro. O discurso da emissora é o seguinte:

“Quando se fala em saúde pública, é comum pensar em emergências abarrotadas, doentes enfrentando uma maratona desumana atrás de tratamento. Outros morrem sem conseguir. Nossa equipe encontrou pais que perderam filhos, acompanhou a viagem de pacientes durante horas em vans e ainda situações chocantes”.

A Série, que está sendo apresentada ao longo de toda esta semana, não passa de uma convincente peça publicitária. Os possíveis anunciantes e antigos parceiros podem ficar tranquilos, se depender da política de comunicação da emissora o discurso será intimista e causará, além da comoção, muita revolta com o serviço público.

Na visão do maior grupo de comunicação do estado, saúde pública é sinônimo de ineficiência, profissionais mal preparados e falta de atendimento adequado aos usuários. No entanto, quem conhece o trabalho árduo realizado tanto na atenção primária, quanto hospitalar, sabe que, embora existam dificuldades, sobretudo pela falta de financiamento adequado e má vontade política, estes serviços são fundamentais para a promoção da saúde coletiva e prevenção de doenças. Superando o modelo de atenção médico centrado, o qual mantém seu foco apenas na enfermidade, sem considerar as especificidades de cada região e a diversidade dos indivíduos atendidos.

Enfrentamentos necessários: regulamentar a mídia e investir em saúde pública

Enquanto não houver participação da sociedade civil no controle dos conteúdos veiculados pelas empresas de comunicação, as quais, por sinal, operam por meio de concessões públicas, as matérias veiculadas continuarão sendo arquitetadas sob a ótica publicitária. Mas o buraco é mais em baixo e, nem sempre, tem como tapar os furos da real situação. Conforme aponta uma reportagem publicada dia 27 de julho, no Diário do Grande ABC, a saúde privada está deixando mais de 68 mil pessoas sem convênio na região. A matéria, assinada pela jornalista, Paula Cabrera, ressalta: “em menos de um ano três hospitais fecharam as portas e 68,8 mil pessoas ficaram sem atendimento, mesmo pagando o convênio médico em dia”.

Para se ter uma ideia da encrenca, recentemente a OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgou em seu relatório anual, cujos dados são de 2008, que o governo brasileiro é um dos que menos investe no setor, apenas cerca de 6% do orçamento nacional. Consta, ainda, neste balanço, o fenômeno da explosão de planos de saúde, evidenciado no país principalmente durante a última década. No entanto, há mais de dez anos, com a criação da Emenda Constitucional 29, foram estipulados patamares mínimos de aplicação dos recursos por parte dos três níveis da federação. Municípios deveriam aplicar 15%, estados 12% e a União precisaria sustentar o gasto do ano anterior, devendo corrigi-lo pela variação nominal do PIB.

Na opinião da professora Élida Graziane Pinto, “passados dez anos da sua edição, podemos sinceramente avaliar como não cumprida a promessa da Emenda 29 de conferir estabilidade e suporte mínimo de recursos para o SUS”. Conforme destaca, não é a falta da CPMF o fator gerador do problema de financiamento do SUS e sim a ineficiência da correção sobre o gasto mínimo federal. Este, atualmente, é aplicado apenas pela variação do PIB, ocasionando a regressividade do gasto federal em saúde. (Ver artigo na íntegra clicando aqui).

Em momento algum a Série “aterrorizante” da RBS coloca em questão o porquê da falta de recursos do SUS, responsável por produzir os problemas artisticamente midiatizados. Para abordar a questão da saúde pública no Brasil é preciso considerar, necessariamente, os projetos de Lei 01/2003 e 121/2007, os quais tramitam, respectivamente, na Câmara dos Deputados e no Senado. Ambos têm o intuito de regulamentar a Emenda 29 e, com isso, estipular um dever de gasto público mais adequado as reais necessidades dos usuários. O Governo Federal tem a obrigação de aplicar, nesta área, um gasto mínimo compatível à sua receita.

Desde 2007, com o fim da contribuição destinada ao custeio da saúde pública trava-se um embate político sobre a necessidade de se restabelecer a cobrança deste imposto e a verdadeira eficácia de sua aplicabilidade. Mas, a afiliada gaúcha da família Marinho, nem ao menos cogita trazer à baila estas questões. Prefere utilizar-se da habitual apologia à providência divina da iniciativa privada. Como se todos pudessem acessar os planos de saúde e, estes, representassem uma melhora considerável no atendimento da população.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Diário de Expediente: um manifesto contra a resignação e a subserviência

É impossível não dedicar algumas linhas no Exílio Midiático para recomendar a leitura do livro “Diário de Expediente”. Antônio Ferreira, protagonista da história, pode ser qualquer um de nós. O caderno de anotações, onde descreve sua experiência degradante no departamento comercial de uma empresa de segurança privada do Rio de Janeiro, coloca a todos em contato com sentimentos indesejáveis aos proprietários da força de trabalho. Não me refiro apenas ao ódio de classe, fundamental para não aviltar-se, mas, acima de tudo, à solidariedade, tão necessária para a construção de uma sociedade mais justa.

Ao escrever esse diário o autor revela o potencial da ironia, por vezes, destrutivo. Trata-se de um método a ser empregado apenas contra os inimigos de classe. Jamais com amigos e companheiros de luta. O objetivo de melindrar, constranger e, até mesmo, ferir outra pessoa, precisa ser direcionado a quem pretendemos eliminar. Da mesma forma, é fundamental saber achar graça das coisas. Valendo-me de um recurso muito utilizado pelo autor, o qual, em algumas passagens, se ampara em letras de músicas para exemplificar seu pensamento, considero que “rir de tudo é desespero” - frase utilizada por Frejat em “Amor para recomeçar”. Ao longo de seu relato Ferreira mostra a medida certa do escárnio. Conspira contra a lógica escravagista da atividade profissional sem perder o humor. Deixando que nos roubem essa habilidade, é meio caminho andado para a total dominação dos patrões.

Contudo, esse processo é mais denso. Não se resume apenas a fazer piada com a cara de quem nos explora. Consiste em transformar o ódio, emergente da rotina laboral, em ação direta para a transformação das condições impostas pela divisão do trabalho. Pois bem, lendo o livro “Diário de Expediente”, além de dar boas risadas, é improvável não indignar-se. Só a verdadeira militância sabe o quanto esse sentimento está, pouco a pouco, se perdendo. Até mesmo em ambientes, antes, considerados fontes desta fúria de classe percebe-se a burocratização das práticas de disputa política e social. Argumentos para justificar tal inoperância existem aos montes, mas ficar só se queixando não é bem o que o autor nos instiga a fazer.

Cada experiência narrada no livro certamente remete a situações experimentadas no cotidiano de milhares de trabalhadores brasileiros. Chefes fanfarrões, colegas submissos, rotina de trabalho improdutiva, prestação de serviços e favores não compatíveis à função exercida - ainda mais durante o horário do serviço - e por aí vai. A forma com a qual Ferreira assumiu o cargo administrativo dentro da empresa também não se distancia do que ocorre com muitos funcionários de escritório brasileiros, na maioria dos casos indicados por um parente para ocupar a vaga no serviço. O auto-intitulado aspone (Assessor de Porra Nenhuma) realiza várias atividades ao mesmo tempo e, por vezes, não faz nada.

Nesse meio tempo resolve registrar sua rotina de trabalho em um caderno, onde constam, ainda, os cartões de contato da empresa. Melhor dizendo, lá estão todos os segredos e as maracutaias de seus superiores, como o dinheiro dado ilegalmente para agilizar serviços ou favorecer as decisões nos negócios, prática conhecida como caixinha. No entanto, de nada valeriam as anotações se aí não residisse uma contradição fundamental na vida do aspone, metido a autor de romance de não ficção.

Declarado militante anarquista, Antônio Ferreira, codinome do verdadeiro autor da obra, procurou sobreviver, neste espúrio ambiente de trabalho, confabulando, e muito. Por vezes delirando, ao imaginar como seria agradável quebrar a cara de seus superiores. Por pouco não o fez. Tanto a aceitação pelo cargo, quanto a postura adotada na empresa são frutos da opção de classe e do esforço militante. Não esteve lá, “na morada do capeta”, por necessidade financeira, como se pode pressupor. Tinha outras opções, diferente da maioria dos colegas de trabalho, dos quais muitas vezes se solidarizou durante a execução das tarefas. O objetivo de encarar essa labuta, declarado logo no primeiro contato com os leitores, é bem claro: conhecer como opera o inimigo adentrando sua estrutura. Com isso, assegurou uma remuneração muito baixa, a qual, no entanto, serviu de combustível para muitas reflexões explosivas.

Informações que constam no livro:

Sobre o autor

O nome de batismo do autor deste livro é Bruno Lima Rocha. A escolha pelo pseudônimo de Antônio Ferreira, é uma mescla de modéstia, identidade coletiva e originalmente, medida de segurança. Quem escreveu estas linhas é jornalista, politólogo e docente universitário. Seu trabalho carro-chefe é como editor-autor do portal Estratégia & Análise (www.estrategiaeanalise.com.br).

Serviço

Livro: Diário de Expediente (160 p.)

Autor: Antônio Ferreira

Editora: Deriva

Porto Alegre, 2011

*Para adquirir uma cópia desta publicação basta acessar o site da Estante Virtual. Clicando neste link você será redirecionado para a página onde constam as informações necessárias. Caso opte por entrar na página inicial do site, será preciso fazer a procura pelo nome do livro “Diário de Expediente” ou pelo pseudônimo do autor, "Antônio Ferreira".

Vale a pena conferir.

Boa Leitura!

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